Controlo dos gatos selvagens na Austrália

Controlo dos gatos selvagens na Austrália

 

Em 2015 o governo australiano tomou a decisão de tentar abater, até 2020, 2 milhões de gatos selvagens, com o objetivo de preservar animais nativos, principalmente várias espécies de pequenos roedores e marsupiais, postos em perigo pelos felinos errantes.
As estimativas para o número de gatos selvagens na Austrália apontam para os 6 milhões, que cobrem, segundo estudos, 99,8% do território, com uma densidade de mais de 100 por quilómetro quadrado nalgumas áreas. Os gatos não são mais prevalentes na Austrália do que no resto do mundo. No entanto, têm um impacto muito acentuado, uma vez que o isolamento deste território, presente numa ilha, gerou uma evolução natural diversa. Isto significa que as suas espécies nativas adaptaram-se a um diferente tipo de predadores. Para além disso, estima-se que 80% dos mamíferos e 45% das aves existentes na Austrália não sejam encontrados no seu estado selvagem em mais nenhum local do mundo.
Na verdade, a espécie felina terá sido introduzida por exploradores europeus no século XVII, ou até mais tarde, segundo certos estudos sobre a sua descendência e, até agora, pensa-se que tenha sido responsável pelo desaparecimento de mais de 20 espécies de mamíferos. Esta informação foi suportada por Gregory Andrews, Comissário Nacional de Espécies Ameaçadas, que acrescentou que tal fará dos gatos a maior ameaça para as espécies nativas da Austrália. Para além de pequenos mamíferos, o porta-voz do Ministério do Ambiente e Energia declarou à CNN que os números diários de morte de aves e répteis apontavam para 1 milhão e 1.7 milhões, respetivamente.
Neste sentido, segundo o Instituto Real de Tecnologia de Melbourne, 211560 gatos foram abatidos nos 12 meses que seguiram a apresentação do plano pretendido pelo governo do país em questão. Os números referidos foram atingidos através da utilização de diferentes métodos, como distribuição aérea de salsichas envenenadas, armadilhas e abate a tiro. Estas ações foram incentivadas e, nalguns locais, como o Estado Nordeste de Queensland, foram oferecidos 10 dólares por cada gato abatido.
Quanto às salsichas envenenadas, estas são compostas por carne de canguru, gordura de galinha, especiarias e ervas, e o veneno 1080, altamente letal para animais, incluindo, claro, o gato, mas também a raposa (não nativa do território australiano). O veneno 1080 corresponde a monofluoroacetato de sódio e está descrito pela APVMA (Australian Pesticides na Veterinary Medicines Authority) como sendo utilizado para o controlo de pestes animais, como coelhos, raposas, cães selvagens e javalis, nocivos para a agricultura e a conservação da biodiversidade. O que se pode ler também no site da autoridade é que esta estará a rever o veneno, uma vez que há preocupações de diferentes foros: afetar animais que não são o alvo, envenenamentos acidentais, a sua eficácia na conservação da biodiversidade e no bem-estar animal, etc. Dr. Dave Algar, o principal investigador do Departamento de Conservação da Biodiversidade e Atrações do Estado Ocidental da Austrália e cientista responsável pelo desenvolvimento das salsichas, diz tê-las criado de modo a serem particularmente atrativas para os gatos. Nalgumas operações iniciadas no passado mês de julho, eram lançadas 50 salsichas envenenadas a cada quilómetro quadrado.
Por outro lado, os dados obtidos pelo Instituto Real de Tecnologia de Melbourne mostram que o abatimento a tiro foi responsável por 83% da morte dos gatos errantes no primeiro ano em que o plano foi posto em prática.
Contudo, este plano de controlo gerou bastantes críticas na população, com diferentes argumentos.
Estas pessoas justificam a sua opinião com duas ordens de razões: a primeira prende-se com o facto de não ser possível estimar de forma fidedigna quantos gatos errantes há na Austrália, o que faz com que não seja efetivamente possível quantificar o progresso alcançado com o plano. A segunda porque, segundo as mesmas, matar um gato não implica diretamente salvar aves ou mamíferos, já que o gato tem de estar efetivamente numa área onde haja as espécies ameaçadas. Um ecologista local esclarece que outros problemas politicamente sensíveis, como o desaparecimento de habitat das espécies, devido à expansão da população, à desflorestação e mineração, possam ter sido negligenciados com o foco que foi dedicado aos gatos selvagens. Apela ainda a uma abordagem mais integral do problema, que faça frente a todas as ameaças à biodiversidade.
Em conclusão, sendo o controlo do gato na Austrália um tema tão polémico e sensível, deve o mesmo ser alvo de uma atenção e de um cuidado especiais e abrangentes, de modo a ser feito com o mínimo de impacto possível quer junto dos animais, quer junto das pessoas que com eles convivem. Só assim a intervenção humana/científica será mais consensual e eticamente menos reprovável.

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