Incêndios na Amazónia

A Amazónia, também conhecida como pulmão do mundo, está em perigo há bastante tempo, devido à desflorestação, mas recentemente os incêndios simultâneos alertaram o mundo.
Esta floresta, que é a casa de 1/10 das espécies da Terra, foi alvo de 9000 fogos concomitantes. Estes, cuja maioria foi ilegal e que se acredita serem especialmente motivados pela indústria pecuária, foram exacerbados pela seca proporcionada pela estação do ano. 2019 já conta com 80% mais fogos que o ano passado, de acordo com o INPE (Instituto Nacional de Pesquisa Espacial) do Brasil. Em julho, a desflorestação alcançou um recorde, tal como ilustra o The Guardian no seguinte gráfico:
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Ora, tais fogos implicarão consequências para as espécies residentes, tanto a curto como a longo prazo. Segundo William Magnusson, um investigador especialista na monitorização da biodiversidade no INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazónia), “Nada na Amazónia está preparado para o fogo”. De ressalvar que, em algumas florestas, os incêndios são essenciais para manter os ecossistemas saudáveis, de tal maneira que os animais estão adaptados para lidar com os mesmos, havendo mesmo alguns que dependem até deles para se desenvolverem. Este é o caso, por exemplo, do Pica-Pau de Barriga Preta: esta ave apenas faz ninhos em árvores que arderam e alimenta-se de escaravelhos que infestam a madeira queimada. No entanto, a Amazónia não é uma dessas florestas. Na verdade, segundo Magnusson, esta é tão rica e diversa exatamente porque não arde. Neste sentido, embora os fogos, por vezes, apareçam naturalmente, são tipicamente em pequena escala e rasteiros, sendo rapidamente apagados pela chuva.
Segundo Mazeika Sullivan, professor adjunto na faculdade do Ambiente e Recursos Naturais da Universidade do Estado de Ohio, que fez trabalho de campo na Amazónia, os animais, no seio de um incêndio, acabam por ver as suas opções muito reduzidas: ou tentam esconder-se, enterrando-se, ou tentam submergir-se em água. Ou seja, ou se deslocam ou acabam por perecer. Nesta situação, muitos animais morrerão, quer devido às chamas, quer em virtude do calor emanado por elas ou da inalação de fumo. Claro que certas características dos animais podem ser vantajosas, como ser móvel, rápido e de grandes dimensões, como os jaguares e os pumas ou algumas aves, que podem ser capazes de escapar. No entanto, animais lentos, como as preguiças e os papa-formigas, e animais pequenos, como sapos e lagartos, poderão ser facilmente afetados, sendo incapazes de se mover para fora do alcance do fogo em tempo útil.
Dr Claudio Sillero, professor de biologia conservativa na Universidade de Oxford diz estar especialmente preocupado com os pequenos animais, como os anfíbios, répteis e invertebrados, que vivem em microhabitats. Se os mesmos forem afetados pelos fogos, estes animais não sobreviverão. Para além disso, a sua descendência será também afetada, já que os seus ovos, que necessitam de humidade, não resistirão. Relativamente às aves, o professor alerta para o facto de, embora possivelmente conseguirem escapar, terem de abandonar as crias e os ovos.
Segundo Dr. Alex Less, da Universidade Metropolitana de Manchester, mesmo fugindo, as hipóteses de sobrevivência destes animais permanecem muito escassas, uma vez que, depois de um incêndio, a área queimada torna-se inutilizável para muitas espécies, ao que acresce o facto da maioria das áreas já se encontrar completamente “lotada”, pelo que, para sobreviverem noutro local, terão de destronar outro animal da mesma espécie do seu lugar.
Neste sentido, não se sabe se os incêndios podem ameaçar globalmente ainda mais as espécies já vulneráveis, porque não se conhece suficientemente bem a distribuição das mesmas. No entanto, tendo em conta que existem espécies apenas documentadas em sítios específicos da amazónia, que estão ou estiveram expostos a fogos, como é o caso dos primatas Plecturocebus miltoni e Saguinus fuscicollis mura, estas espécies endémicas poderão estar em risco de extinção.
No que toca aos grandes corpos de água, estes estarão praticamente a salvo a curto prazo, mas animais dos pequenos rios ou esteiros, habitats que são biologicamente muito diversos, poderão estar em perigo. Para além disso, o fogo pode mudar as características químicas da água, ao ponto deste meio se tornar insustentável à vida, num curto período, segundo Sullivan.
As consequências dos fogos após cessarem serão, então, o segundo maior problema, e, de acordo com o mesmo investigador, poderão ser ainda mais catastróficas do que as imediatas. Na verdade, todo o ecossistema das zonas afetadas será alterado. Um exemplo mencionado é o facto de haver uma densa cobertura na floresta tropical da Amazónia, que praticamente bloqueia a chegada dos raios solares ao solo. Uma vez que esta cobertura será corrompida pelo fogo, deixará a luz passar e mudará o fluxo de energia do ecossistema. Tal poderá dar lugar a um efeito cascata, que alterará toda a cadeia alimentar. Assim, sobreviver nestes ecossistemas alterados será uma batalha para muitas das espécies, como é o caso de anfíbios que habitualmente se encontram camuflados, dado que a sua pele mimetiza a vegetação e que ficarão, após a catástrofe, expostos. Para além disso, muitas espécies na Amazónia evoluíram de maneira a adaptarem-se ao nicho em que vivem. Temos o caso dos tucanos, que comem fruta inacessível a outros animais, através dos seus bicos longos, que lhes dão a capacidade de chegar a fendas às quais outros não conseguem. Contudo, com a destruição desta fruta, provavelmente a população de tucanos local sofrerá uma crise. O mesmo se passará com os Macacos-aranha, que vivem na copa das árvores, para evitar competição das camadas inferiores. Ao perder as copas, estes serão forçados a enfrentar a competição. Assim, as únicas espécies possivelmente beneficiárias de uma floresta queimada serão as aves de rapina e os predadores, que terão os seus alvos mais facilmente identificáveis.
Por outro lado, tal como as espécies terrestres, também as aquáticas serão afetadas a longo prazo, tal como o golfinho do rio amazonas (conhecido, entre outros nomes, como Boto-Cor-de-Rosa), a lontra gigante ou as várias espécies de peixes da floresta tropical.
Sullivan acrescenta ainda que, se a floresta tropical desaparecer, com ela levará 99% de todas as espécies e que o que mais o preocupa são as mudanças nas políticas brasileiras, que encorajam a desflorestação.
A todos os problemas mencionados junta-se um que tem sido apontado pelos ambientalistas: as consequências que tal problema poderá ter nas alterações climáticas, o que, indubitavelmente afetará todas as espécies.
Para além disto, não só os animais terão de lidar com as consequências diretas dos incêndios, como muitos humanos dependentes da floresta perderão os seus meios de subsistência (como a caça de tartarugas e capivaras ou a recolha de plantas para a construção de casas e medicamentos), pelo que, segundo a Dra. Rachel Carmenta, cientista ambientalista da Universidade Cambridge, que trabalha com os indígenas residentes na Amazónia e com as suas comunidades de várias descendências, “o fogo é também um problema humanitário”.
O que podemos, então, fazer para ajudar?
MANIFESTAR-NOS
As ações mais importantes são políticas e coletivas, pelo que devemos pressionar as entidades responsáveis para que não optem por fazer negócios com países que se foquem na desflorestação e para apoiarem mais iniciativas de reflorestação.
Para tal, devemos mostrar descontentamento, através dos meios ao nosso alcance, mas apenas se estivermos corretamente esclarecidos, através de meios fidedignos! Tornando esta situação social, económica e politicamente inaceitável, podemos prevenir que volte a acontecer futuramente.
DOAR A INSTITUIÇÕES QUE POSSAM AJUDAR NO TERRENO
Para além disso, podemos fazer donativos para organizações que apoiam a biodiversidade da floresta, como Instituto Socioambiental, Amazon Watch, WWF, Greenpeace, Imazon, International Rivers e a Friends of the Earth. A WWF, por exemplo, tem um apelo de emergência, sendo que o dinheiro angariado será utilizado para realizar trabalho de campo urgente, como:
● Suportar as necessidades das comunidades indígenas em termos médicos, de treino para combater o fogo e de
segurança;
● Trabalhar com os governos locais, quando possível, para combater os fogos e a desflorestação;
● Realizar projetos de monitorização, resgate e recuperação da vida selvagem;
● Apelar à ação por parte do governo.
ASSINAR PETIÇÕES CONTRA A IMPORTAÇÃO DE PRODUTOS RELACIONADOS
Uma das frentes contra as quais podemos lutar é o sistema que gera a desflorestação, quer da Amazónia, quer de outras áreas valiosas. Podemos fazê-lo através da assinatura de petições que tenham o objetivo de parar a importação e venda e produtos que estão no cerne da desflorestação. Algumas das associações supraenumeradas têm petições disponíveis nos seus sites.
MANTERMO-NOS INFORMADOS
Quanto mais soubermos sobre o que se passa na Amazónia, mais podemos ajudar!
Saber o porquê dos fogos e as razões pelas quais, embora estes não sejam novidade, têm vindo a tornar-se preocupantes ajuda a entender a importância de adotar uma alimentação sustentável! Para mais informação sobre o assunto pode consultar-se o artigo do “The Guardian”.
Assim, como consumidores, devemos ponderar as nossas escolhas no que toca a produtos cárneos, tendo em conta a sua origem: pensar, por exemplo, duas vezes antes de comprar alimentos proveniente do Brasil, a não ser que sejam certificados por grupos como o Rainforest Alliance.
Referências:
Daly, N. (2019). What the Amazon fires mean for wild animals. https://www.nationalgeographic.com. https://www.nationalgeographic.com/animals/2019/08/how-the-amazon-rainforest-wildfires-will-affect-wild-animals/
Watts, J. (2019). Amazon fires: what is happening and is there anything we can do?. the Guardian. https://www.theguardian.com/environment/2019/aug/23/amazon-fires-what-is-happening-anything-we-can-do
5 ways to help the Amazon Rainforest. (2019). WWF.
https://www.wwf.org.uk/updates/5-ways-help-amazon-rainforest
