Tratamento revolucionário desenvolvido em parceria do i3S

Um novo fármaco, desenvolvido com a participação Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto (i3S), está na vanguarda do tratamento contra a leishmaniose.
A leishmaniose é uma patologia zoonótica provocada por um parasita, protozoário intracelular, que se transmite, principalmente, através da picada do inseto flebótomo. A transmissão entre humanos, raramente descrita, pode ainda ocorrer por via parentérica, através da injeção com material contaminado ou transfusões sanguíneas ou de órgãos, no caso de países cujo despiste não é obrigatório, como Portugal. O desenvolvimento da doença é favorecido em situações de depressão do sistema imunitário, o que acontece, por exemplo, em indivíduos HIV positivos ou submetidos a terapia imunossupressora, como é o caso do tratamento de cancro ou submetidos a transplante de órgãos.
Uma vez estabelecida a infeção, se não for corretamente gerida, a respetiva doença pode evoluir para uma forma muito grave, potencialmente fatal, tanto no cão (principal reservatório), como no humano.
No entanto, a eliminação definitiva do parasita permanece muito difícil com os tratamentos atualmente disponíveis no mercado. Com efeito, os fármacos existentes, normalmente, atrasam a progressão da doença, diminuem a possibilidade de transmissão da infeção e melhoram os sinais clínicos, devido à diminuição da carga parasitária, mas nenhum é 100% eficaz na eliminação do parasita, não sendo uma garantia de prevenção de transmissões futuras. Assim, mesmo com uma cura clínica, os animais podem permanecer portadores e, portanto, reservatórios da doença.
Neste sentido, surge este novo fármaco: é formulado com um composto mais eficaz, menos tóxico, com a possibilidade de administração oral e, ainda, mais barato do que os tratamentos disponíveis no mercado.
O fármaco em questão resultou do projeto de investigação NMTryp (New Medicine for trypanosomatidic infections), que envolveu 12 parceiros europeus e de países com doenças endémicas (Grécia, Itália, Portugal, Sudão e Brasil) e foi financiado pela União Europeia em 2014. O i3S (Instituto de Investigação e Inovação em Saúde) é parte integrante do consórcio internacional que descobriu o composto químico que pode ser utilizado para o tratamento com sucesso da Leishmaniose, do qual fazem parte nove instituições académicas e três empresas.
Com efeito, foi realizado um estudo com 12 cães da raça beagle que foram tratados com o fármaco e estão curados da infeção, já tendo sido adotados, sob condição de continuarem a poder ser seguidos pelos investigadores.
Após 6 anos, e depois de terem sido testadas mais de meio milhão de moléculas, onde foram realizados testes, tanto in vitro, como in vivo, em diversas espécies, Anabela Cordeiro da Silva, líder do grupo de investigação do i3S «Parasite Disease» declara: «podemos dizer que obtivemos um composto de síntese química, logo muito mais barato, que funciona, é de administração oral e tem menor toxicidade para os animais do que os fármacos disponíveis no mercado», e acrescenta, ainda, que «O composto está patenteado e decorrem já negociações com a indústria farmacêutica veterinária», estando certa de que brevemente será comercializado.
Neste momento, segundo a investigadora, só falta determinar o local específico de atuação do composto no parasita, uma vez que já há indicações sobre o mecanismo de ação, e iniciar os ensaios clínicos de fase 1 em seres humanos.
A Leishmaniose é endémica na Ásia, África, América e Região Mediterrânica, onde se incluem os países do Sul da Europa, como Portugal, Espanha, Itália e Grécia. Assim, de acordo com as estimativas mais recentes, 200 milhões de pessoas vivem em países de risco para a doença. Em Portugal, regiões como as Beiras, Trás-os-Montes, Ribatejo, Alentejo, e, sobretudo, o Douro, área metropolitana de Lisboa, Setúbal e Algarve, são áreas de foco da patologia. Numa visão mais geral, no mundo, a cada ano, são registados 12 milhões de casos e 50 mil mortes.
Em suma, a nova descoberta é de interesse colossal a nível da saúde pública mundial, representando um passo decisivo tanto na medicina humana, como na veterinária.
