De que forma podemos compreender melhor os gatos?

De que forma podemos compreender melhor os gatos?

 

A prática veterinária tem, diariamente, um grande impacto físico na saúde emocional do médico veterinário. Porém, a manifestação comportamental motivada pelas emoções além de poder ser indesejável aos olhos dos tutores também pode influenciar negativamente o bem-estar animal do gato na consulta.
 
Portanto sendo o stress felino, em associação à prática veterinária, uma das principais causas que levam os tutores a evitar a ida dos seus gatos às consultas torna-se crucial compreender o comportamento felino bem como haver uma adaptação por parte dos médicos veterinários e dos tutores ao mesmo de modo a otimizar a deteção, o maneio e o tratamento das doenças dos felinos.
 
 
Sistemas de motivação-emoção
 
De modo a haver uma melhor compreensão do comportamento de cada espécie, fez-se a divisão, do ponto de vista neurocientífico, de sistemas de motivação-emoção. Estes sistemas podem ser agrupados nas seguintes categorias: “motivações emocionais positivas” e “emoções motivacionais negativas”. Dentro das motivações emocionais positivas encontram-se “sistema de busca-desejo”, “sistema social” e “sistema de afeção”. Por outro lado, o sistema de motivações emocionais negativas compreende o “sistema de frustração”, “sistema de medo-ansiedade”, “sistema de dor” e “sistema de pânico-tristeza” (Heath,2018).
 
Dada a relevância de entender como é desencadeado o stress felino bem como as emoções negativas do animal, torna-se importante definir cada sistema relacionado com as motivações emocionais negativas.
 
O sistema de frustração é ativado pela falha em alcançar expectativas previamente estabelecidas bem como pela obtenção de recursos e de manutenção do controlo. Este sistema é normalmente associado a comportamentos agressivos quando o animal não tem qualquer controlo sobre uma situação ou se sente irritado (Heath,2018). Por outro lado, o sistema de medo-ansiedade ajuda, intrinsecamente, o animal a evitar situações perigosas uma vez que o medo por antecipação o prepara para gerar respostas contra uma possível ameaça em detrimento de ser atacado ou estar indefeso. Deste modo, este sistema é normalmente associado a um estado de sobrevivência animal (Heath,2018). O sistema de dor está relacionado com a manutenção da integridade e do funcionamento do corpo. Sendo assim este sistema está relacionado com a preservação do conforto físico bem como com o sistema de medo-ansiedade (Heath,2018). Por fim, o sistema de pânico-tristeza está relacionado com a salvaguarda da sobrevivência de animais jovens e por conseguinte com a sobrevivência genética da espécie. É de salientar que este sistema está pouco presente nos animais adultos, contudo pode ser evidente em situações de perda de outrem quando há uma forte ligação entre ambos os animais. Além deste tipo de situações, alguns autores consideram que este sistema também é ativo aquando da perda de ligação entre humano-gato quando há um nível de afeto bastante significativo entre ambos (Heath,2018). Apesar deste sistema, como foi dito previamente, estar pouco presente nos animais adultos, revela-se muito importante em animais jovens uma vez que antes de um animal se conseguir proteger autonomamente, há uma exibição precoce de emoções que indicam a necessidade dos mesmos serem cuidados pelos seus progenitores – ativando, deste modo, o sistema de pânico-tristeza.
 
 
Possíveis respostas comportamentais a uma emoção negativa
 
Na presença de algo que desencadeie uma emoção negativa, os gatos podem ter dois tipos de abordagem: 1) aumentar a distância e/ou diminuir a interação com aquilo que está a desencadear a emoção negativa ou 2) aumentar a informação sobre o “gatilho” da emoção negativa (Heath,2018). Para a primeira abordagem, o animal pode: ignorar o “gatilho” podendo de uma forma mais passiva evitar o contato visual como de uma forma mais ativa correr para longe do “gatilho” ou ainda ter um comportamento de repulsa. Para a segunda abordagem o animal pode recorrer à inibição ou apaziguamento. A inibição refere-se à colheita de informação sem que o animal esteja ativamente envolvido e pode ser feita recorrendo aos sentidos nomeadamente ao sentido da visão, audição e olfação. Por outro lado, o apaziguamento refere-se à colheita de informação havendo alguma interação com o “gatilho”. Contudo, é importante ressalvar que este tipo de interação é a menos comum em gatos adultos (Heath,2018).
 
 
Mudanças comportamentais
 
Uma mudança comportamental no gato é, muitas vezes, uma causa que leva o tutor a consultar um médico veterinário. É importante dividir as mudanças comportamentais como: mudanças causadas por respostas intrínsecas ao animal como meio de adaptação a algum fator e que é inconveniente ao tutor ou, por outro lado, mudanças que têm por base razões médicas como por exemplo epilepsia (Bradshaw, 2018). Apesar de algumas vezes estes dois tipos de mudança poderem estar relacionados como no caso da doença crónica do trato urinário inferior, o alvo deste artigo serão o primeiro tipo de mudança.
 
A falta de compreensão dos donos face ao comportamento do animal pode levar a erros de maneio e por conseguinte levar a um impacto negativo no bem-estar animal. Um exemplo referido no Journal of Feline Medicine and Surgery pelo autor John Bradshaw é o seguinte: muitos tutores ficam irritados com o hábito instintivo dos gatos arranharem superfícies – comportamento este que é perfeitamente natural do ponto de vista do animal. Apesar desta situação ser apenas incomoda para os tutores, pode ser facilmente resolvida com treino, levando a que os gatos parem de arranhar as cortinas, por exemplo.
 
Na grande maioria dos casos, as mudanças comportamentais parecem resultar de uma inibição de o gato atingir o seu equilíbrio emocional devido à perceção ou presença de uma ameaça externa, ou frustração de não poder executar o seu comportamento natural (Bradshaw, 2018).
 
 
Papel do médico veterinário
 
A prática veterinária bem como o comportamento do médico veterinário visa estabelecer um equilíbrio entre a saúde emocional do animal bem como a compreensão de relação entre a saúde física e emocional. Deste modo, após a análise comportamental do animal, caso a motivação emocional do animal seja justificada, a terapêutica essencial será otimizar o ambiente em que o animal se encontra bem como educar o tutor de forma que este entenda melhor o comportamento felino e as necessidades do seu animal. Ainda assim, em casos em que o sistema de dor é ativado, por exemplo, torna-se importante a intervenção do médico veterinário. No entanto, quando a motivação emocional do animal não é justificada, o envolvimento veterinário revela-se crucial ao melhoramento do comportamento do felino em questão. Por vezes a medicação não é necessária, mas, em contrapartida, a recolha de informação sobre o meio físico e social em que o animal se encontra, de modo a entender os fatores que afetam diretamente a saúde emocional do gato, é necessária à correção comportamental (Heath,2018).
 
 
Conclusão
 
Por fim, podemos concluir que as respostas comportamentais dos felinos resultam do equilíbrio entre as motivações emocionais. Portanto, de forma a haver sucesso no tratamento comportamental do animal é necessário recolher informação sobre os diversos fatores que podem influenciar as emoções tais como fatores ambientais e sociais.
 
 
Bibliografia
 
Bradshaw, J. (2018). NORMAL FELINE BEHAVIOUR…and why problems develop . Journal of Feline Medicine and Surgery, 411-421.
Heath, S. (2018). UNDERSTANDING FELINE EMOTIONS…and their role in problem behaviours. Journal of Feline Medicine and Surgery, 437-444.