Intoxicação por cebola num gato

Um gato doméstico castrado, com 4 anos e com 2,7kg foi levado à urgência com sintomas de letargia e flatulência nas últimas 4h.
ANAMNESE
Um gato, anteriormente saudável, ingeriu entre 11 a 17g de cebola cozinhada em manteiga, 10h a 12h antes dos sintomas.
ABORDAGEM DO CASO
O veterinário de serviço percebeu que se tratava de uma intoxicação e contactou o “Animal Poison Control Center”, que é um centro que auxilia em casos de urgências com intoxicações em animais de estimação. O veterinário do centro discutiu o potencial risco de lesões oxidativas dos Glóbulos Vermelhos (GV) devido à ingestão da cebola e aconselhou um tratamento.
Foram realizadas análises:
- Análises à urina;
- Um hemograma completo;
- Perfil analítico sérico;
- Avaliação de esfregaço de sangue corado com azul metileno.
O exame microscópico dos Glóbulos Vermelhos revelou corpos de Heinz presentes em todas as células.
Corpos de Heinz são inclusões dentro das hemácias compostas por hemoglobina desnaturada. São indicadoras de diagnóstico de anemia hemolítica.
Na urina estavam presentes hemoglobina e bilirrubina. O hematócrito era de 43,6%, estando dentro dos valores normais (24-45%) e manteve-se dentro dos valores durante as 24h avaliadas.
Foi iniciada fluidoterapia intravenosa, no dobro da taxa de manutenção, para manter a perfusão e proteger os rins. Foi administrada N-acetilcisteina diluída a 20%. Inicialmente foram administradas 380 mg por via oral, e em seguida 190 mg de 6 em 6h, realizando-se o procedimento 4 vezes. Ainda no serviço de urgência foram monitorizados a frequência cardíaca e a frequência respiratória a cada 4h, e os valores mantiveram-se normais.
Cerca de 28h depois do consumo da cebola, as fezes ficaram escuras e cerca de 2h depois das fezes escuras, a urina ficou escura.
As análises do sangue foram repetidas após 24h a ingestão, estava tudo dentro dos valores normais exceto um aumento da enzima alanina aminotransferase, podendo ser resposta a alteração da permeabilidade celular, necrose hepatocelular, toxinas, doenças específicas como PIF, neoplasias hepáticas ou fármacos.
Foi mantida a fluidoterapia e 48h depois da ingestão foram feitas novas análises ao sangue, observando-se de novo um aumento da alanina aminotransferase (150 U/L, ref: 12 a 130) e uma diminuição da fosfatase alcalina (<10U/L, valor ref: 10 a 111) e uma concentração de azoto ureico sanguíneo estava no limite mínimo (16).
Na altura da alta, o hematócrito era 32%, e o valor manteve-se nas reavaliações realizadas 5 e 9 dias depois da exposição. Os donos indicaram que em casa, o animal continuo bem e não se manifestaram sinais clínicos adicionais.
TOXICIDADE
A cebola é do género Allium, que inclui o alho, cebolinho e alho francês. Estes alimentos possuem sulfoxidos (compostos contendo enxofre) dando-lhes um odor e sabor característico, bem como os efeitos farmacológicos que estes possuem.
Os sulfoxidos são hidrolisados em tiosulfinados e por sua vez podem degradar-se em dissulfetos, quando as plantas são esmagadas ou mastigadas. Os dissulfetos são absorvidos rapidamente no trato gastrointestinal e oxidam as membranas dos GV, resultando em hemólise, formação de corpos de Heinz e metemoglobinemia.
Metaglobinemia: A meta-hemoglobina é uma forma de hemoglobina que não se liga ao oxigênio. Quando sua concentração é elevada nas hemácias pode ocorrer uma anemia funcional e hipóxia em tecido.
O dissulfeto de maior toxicidade é o dipropil sulfeto. Ele contribui para as alterações dos GV através da oxidação de grupos sulfídricos livres presentes na hemoglobina. Assim, diminui a atividade da glucose-6 fosfato desidrogenase, diminuindo a concentração de glutatião nos glóbulos vermelhos. Esta enzima participa na via pentose fosfato, uma via metabólica que fornece energia de redução para células, mantendo o nível do NADPH normal e, em consequência, o NADPH, mantém o nível de glutatião.
Desta forma há diminuição da concentração de glutatião nos GV. O glutatião é um antioxidante importante dos GV e atua como agente redutor para os grupos sulfídricos da hemoglobina. O glutatião reduzido pode aumentar a suscetibilidade da hemoglobina a lesões oxidativas.
Nos gatos, a ingestão de 5 g/kg ou mais de cebola é considerada como risco para causar lesões oxidativas na hemoglobina e para a anemia, geralmente regenerativa. A anemia pode ser logo 12h após a ingestão, mas tipicamente é aos 2 a 5 dias após ingestão. Existe também preocupação de lesões renais devido à hemoglobinúria.
Os sinais clínicos de intoxicação por cebola em gatos são inespecíficos, mas de acordo com o ASPCA APCC, os mais frequentes são vômitos, diarreia e letargia.
TRATAMENTO
Quando não se observam sinais clínicos deve ser considerada a descontaminação, com emese (expulsão de conteúdo gástrico) ou carvão ativado. A decisão de realizar a descontaminação também depende do estado de saúde do animal.
A emese deve ser feita com precaução e nos gatos pode ser induzida com dexmedetomidina pois os gatos não vomitam facilmente quando usado peroxido de hidrogénio a 2%.
Pode ser administrado carvão ativado por via oral.
Carvão ativado: o carvão ativado adsorve a substância tóxica e diminui a quantidade disponível para absorção pelo sistema digestivo. Os seus efeitos colaterais são mínimos. As substâncias tóxicas adsorvidas nos poros são eliminadas com o carvão através das fezes. Os gatos assintomáticos descontaminados com êxito devem ser monitorizados em casa pelos donos.
Recomenda-se a determinação do hematócrito e a realização de esfregaços de sangue durante cinco dias a partir do início dos sinais clínicos
O tratamento para os gatos que exibem sinais clínicos pode incluir administração de oxigênio para suporte de hipóxia, transfusões de sangue, fluidoterapia para controlo do choque e suporte da função renal e controlo da função digestiva.
Recomenda-se a realização diária de análises de sangue e o tratamento deve ser mantido até os sinais clínicos desaparecerem.
CONCLUSÃO
Gatos são mais sensíveis a intoxicações com cebola comparativamente a outras espécies.
Exposição a quantidades superiores a 5g/kg pode causar alterações gastrointestinais e lesões oxidativas da hemoglobina, anemia por corpos de Heinz, entre outras.
Nos gatos o maior problema é a anemia e metemoglobinemia que se desenvolvem mais rápido do que a capacidade de recuperação do GV oxidados.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
- http://www.scielo.br/pdf/pvb/v22n2/10697.pdf
- Freed, Erin- Um tóxico com odor forte: Intoxicação por cebola num gato
