Piómetra: o que sabemos atualmente?

A piómetra, é definida como uma acumulação de conteúdo purulento no lúmen uterino fruto de uma infeção bacteriana. Esta infeção uterina, afeta cadelas e gatas adultas não esterilizadas e pode ocorrer em todas as faixas etárias, no entanto, afeta predominantemente cadelas com mais de 6 anos de idade.
A etiopatogenia primária, permanece desconhecida, mas aparenta estar relacionada com a ação da hormona progesterona. Em contrapartida, a concentração sanguinea de progesterona nas cadelas é mais elevada do que nas gatas, sendo, portanto, mais comum nas cadelas.
Durante a fase de diestro, a progesterona induz a diminuição das defesas naturais do útero, tornando-o mais suscetível a infeções. As bactérias comensais da vagina são transportadas através do cérvix até ao endométrio e provocam a infeção. Para além de estimular o crescimento endometrial e a sua secreção, a progesterona tambem reduz a contratilidade miometrial favorecendo a adesão e proliferação de bactérias no útero. Na piómetra canina, Escherichia coli é o agente causal mais comumente isolado.
Alguns estudos sugerem que o aparecimento deste distúrbio em cadelas, está relacionado com a ocorrência de desequilíbrios hormonais e sequelas de hiperplasia endometrial cística. A predisposição racial de algumas cadelas e gatas, também demonstra que os fatores genéticos podem contribuir para a ocorrência desta doença. Adicionalmente, o uso de métodos contracetivos como a pilula ou estrogênios exógenos para interromper a gestação favorecem o aparecimento de piómetra pelo que o seu uso deve ser evitado.
A piómetra pode ser classificada como aberta ou fechada. Na forma aberta, a fêmea apresenta descarga vaginal purulenta e odor fétido, enquanto na forma fechada, não há descarga vaginal e pode haver distensão do útero, contudo, apesar desta ser menos comum, esta forma é mais preocupante porque por vezes, só é percetível tardiamente pelos tutores. Durante a piómetra, pode ocorrer rutura do corno uterino, bacteremia e endotoxemia, colocando a vida do animal em risco. Cerca de 60% das cadelas e 86% das gatas com piómetra sofrem de sepse, portanto, deve ser tratada com urgência.
Os sintomas mais comumente descritos são: polidipsia e poliúria; descarga vaginal continua ou intermitente que varia de mucopurulenta a sanguinolenta; anorexia; taquicardia; taquipneia; distensão abdominal; febre; letargia; perda de peso; membranas mucosas pálidas ou hiperémicas; vomito e diarreia.
A suspeita de piómetra começa a partir da anamnese e observação de sinais clínicos típicos. A palpação abdominal deve ser cuidadosa para evitar rutura do útero e durante esta, o animal pode demonstrar sinais de dor, sendo possível sentir uma grande estrutura tubular. A realização de vaginoscopia permite descartar a presença de corpo estranhos como causa da descarga vaginal. Os exames hematológicos e bioquímicos, podem revelar a afeção de outros órgãos devido à disseminação da infeção. A presença de leucocitose, com neutrofilia e desvio à esquerda, e monocitose são achados característicos da piómetra, juntamente com a anemia regenerativa normocítica e normocrômica.
O diagnóstico é confirmado através de exames imagiológicos como a ultrassonografia e a radiografia abdominal. Através da ultrassonografia, é possível avaliar a integridade do endométrio, a espessura da parede uterina, distensão uterina e as glândulas endometriais císticas, bem como descartar a possibilidade de gestação e neoplasia.
É importante descartar a hiperplasia endometrial cística, visto que o tratamento para cada uma destas patologias é distinto.
A abordagem terapêutica inicial consiste em internar e estabilizar o animal, através de fluídoterapia intravenosa, uso de antibióticos de largo espetro e imunoestimulantes. Seguidamente, procede-se à resolução da piómetra, com ovariohisterectomia de urgência. No pós-operatório é importante o uso de analgésicos, a colocação do colar isabelino ou fatos para proteger a zona da sutura.
Bibliografia
Pyometra in Small Animals 2.0 [Science Direct];
An overview on etiopathogenesis of canine pyometra and its management [The Pharma Innovation]
