Primeira cirurgia num animal

Durante escavações entre 1975 e 1985, num local arqueológico de Champ-Durant, situado a Oeste de França, foi encontrado um crânio quase inteiro de uma vaca (faltava uma parte da maxila e as extremidades dos cornos). Na altura, constatou-se que esse crânio tinha um buraco na parte direita do osso frontal e quis se saber qual seria a causa.
As primeiras análises sugeriram que teria sido provocado por uma cornada de outra vaca.
Em 2002, não convencido desse resultado, o diretor dessas escavações pediu a Fernando Ramirez Rozzi e a Alain Froment (do Museu do Homem, em Paris) que examinassem de novo o buraco no crânio.
Os dois cientistas observaram-no ao pormenor através de microscópio eletrónico de varrimento. “O crânio da vaca tinha as mesmas marcas apresentadas por um crânio humano que tenha sido submetido a uma trepanação [cirurgia em que se faz uma perfuração no crânio] ”, indica Fernando Ramirez Rozzi. “As marcas à volta do buraco revelam a técnica típica de trepanação muito usada no período Neolítico. Essas marcas são semelhantes nos crânios da vaca e de um humano.”
Na pré-história já se dominava a técnica de trepanação, sendo que os motivos da mesma podiam ser religiosos ou de saúde, o que dependia das sociedades e dos períodos históricos. “O crânio mais antigo [humano] com provas de trepanação já revelava o uso das mesmas técnicas usadas tempos históricos com o mesmo grau de precisão”.
Há um crânio de javali, que se pensa ser do Neolítico, que mostra sinais de uma cirurgia e agora há o crânio da vaca de Champ-Durant.
Os cientistas consideram agora o crânio desta vaca como a prova mais antiga de uma trepanação num animal e apontam duas hipóteses para o motivo da cirurgia. Pode ter sido realizada para curar a vaca ou para treinar nela a técnica de trepanação que depois seria aplicada nos humanos. “Se a cirurgia ao crânio observada na vaca foi feita para salvar o animal, então Champ-Durant dá-nos a primeira prova de uma cirurgia veterinária. Por outro lado, se a trepanação era usada para praticar técnicas, a vaca de Champ-Durant poderá dar-nos a primeira prova de uma experimentação cirúrgica num animal, indicando que esta prática já existia em 4000 a.C.”, concluem os cientistas.
Visto que o osso não cicatrizou, os cientistas puderam concluir que a vaca já estava morta ou que não sobreviveu à cirurgia.
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