Hipoadrenocorticismo Canino

Hipoadrenocorticismo Canino

 

O hipoadrenocorticismo, por ser uma doença pouco comum, é muitas vezes esquecido e, por isso, é importante apelar à sua possível ocorrência. Esta patologia é apelidada de “the great pretender” uma vez que pode causar diversos sintomas que mimetizam outras doenças.
Esta doença é maioritariamente causada por uma destruição imunomediada das glândulas adrenais. Estas são constituídas por uma parte interna, a medula e por uma externa, o córtex. Este último é composto por 3 camadas: zona glomerulosa, zona fasciculada e zona reticulada.
Em termos de classificação, é importante diferenciar entre um hipoadrenocorticismo primário e secundário para que possamos implementar um tratamento específico e correto. E como o devemos fazer? Primeiramente é importante diferenciá-los. O primário é mais comum e é causado por uma destruição imunomediada das três camadas do córtex de ambas as glândulas adrenais, o que irá provocar uma diminuição dos níveis de cortisol e de aldosterona. Apenas quando 85-90% do córtex é destruído é que são notáveis os sinais clínicos. Já o hipoadrenocorticismo secundário é causado quando existe uma diminuição da secreção da hormona adrenocorticotrófica (ACTH) ou da hormona secretora de corticotrofina (CRH), ambas devido a fatores como, por exemplo, uma neoplasia. Neste último tipo, apenas as zonas fasciculada e reticulada sofrem atrofia levando a uma diminuição da secreção de cortisol. O teste realizado para a diferenciação entre estes dois consiste na medição da concentração de ACTH endógena no plasma sanguíneo. No tipo primário esta medição encontra-se elevada devido à falta de feedback do cortisol na secreção de ACTH e os valores de cortisol encontram-se diminuídos e os de ACTH aumentados. Relativamente ao secundário, esta medição encontra-se baixa devido a uma perda da capacidade secretora de ACTH pela hipófise, por conseguinte os valores de cortisol e de ACTH encontrar-se-ão diminuídos.
Dependendo do estado de evolução da doença os sinais clínicos podem variar de cão para cão. Estes sinais podem ser convulsões induzidas pelo exercício, fraqueza muscular, inapetência, letargia e perda de peso. Os sintomas mais comuns são o vómito, diarreia, poliúria, polidipsia, hematémese e melena ou hematoquezia.
Relativamente aos testes laboratoriais, nenhum resultado é específico para o diagnóstico desta doença. É necessária a realização de um hemograma completo, sendo que os resultados esperados de um cão com hipoadrenocorticismo serão de um perfil de leucograma típico de stress – linfopenia, eosinopenia, monocitose e neutrofilia. Uma leve anemia normocítica e normocrómica também é comum. Quanto à análise bioquímica sérica é recorrente um perfil de hipercalemia, hiponatremia e azotémia.
O gold standard para o diagnóstico desta patologia consiste num teste de estimulação de ACTH. Este teste consiste na medição de ACTH sérica antes e depois da administração de ACTH sintética. Cães com hipoadrenocorticismo normalmente apresentam uma linha reta refente aos níveis de cortisol antes e após a administração de ACTH.
O tratamento desta patologia poderá ser agudo ou crónico. O foco para um tratamento agudo baseia-se na reposição da hipovolemia através de fluidoterapia intravenosa e na normalização da perfusão tecidual, corrigindo desta forma as variações eletrolíticas, a hipoglicémia e auxilia na restauração do equilíbrio ácido-base. Quanto ao tratamento crónico, este consiste na administração de suplementos orais de mineralocorticoides e glucocorticoides.
Por último, o prognóstico é bom se o animal com a patologia for bem seguido e se esta for detetada atempadamente. Os cães apresentam, por norma, uma boa qualidade de vida e uma esperança média de vida normal. Mais uma vez, o parâmetro mais importante para a qualidade de vida do animal é a educação do proprietário. Este deverá ter uma boa relação com o médico veterinário que lhe dará dicas preciosas para lidar com o seu animal de estimação. Os proprietários devem ser avisados que o seu animal requere um tratamento contínuo ao longo da sua vida e que durante esse período é muito importante as idas ao veterinário para examinações e para a realização de alguns testes necessários.

VER MAIS