Ronronar – O que sabemos afinal?

Estamos habituados a associar o conhecido ronronar aos gatos e a interpretá-lo como um sinal de satisfação e bem-estar. No entanto, os estudos revelam que tal comportamento abrange um espetro muito mais amplo de espécies, situações e respetivas sensações e que os objetivos/funções de tal ato serão muito variados e enigmáticos.
Quais os animais que conseguem ronronar?
Muitas famílias de mamíferos carnívoros produzem sons que poderão ser equiparáveis ao ronronar, no entanto só as famílias Felidae (felinos) e Viverridae (da qual faz parte a gineta) são autoras do verdadeiro ronrom, definido por vários autores como um zumbido suave criado por vibrações do trato respiratório superior, que varia ritmicamente com a respiração, audível e palpável. Mas não é certo sequer que, mesmo dentro da família Felidae, todos os felinos sejam capazes de ronronar!
No início dos anos 90, os felinos foram divididos em dois grupos: os capazes de ronronar (Felinae) e os capazes de rosnar (Pantherinae – o leão, o leopardo, o jaguar, o tigre, entre outros), restringindo-se estas espécies a esse som e não conseguindo produzir o outro. Mais tarde, por outro lado, foi sugerido que todos os Felidae ronronassem, mas que, em algumas espécies, tal som se limitasse apenas a felinos mais jovens e/ou a fêmeas no estro, antes e durante a cópula. Contudo, nenhuma destas propostas foi baseada num estudo detalhado de comparação interespecífica da vocalização e não há atualmente informações suficientes para concluir que estes não sejam capazes de ronronar.
Deste modo, os diferentes sons produzidos estarão, de acordo com os autores, relacionados com diferenças no aparelho hioide dos animais, mas não há análises científicas que avaliem a verdadeira natureza do ronronar e as suas bases filogenéticas, nem que clarifiquem a associação de um aparelho hioide completamente ossificado a uma capacidade de ronronar, ou o contrário, quando este é incompleto.
Como é produzido o ronronar?
Várias teorias foram apontadas para explicar este acontecimento.
Inicialmente, propôs-se que o ronrom estivesse relacionado com a passagem do sangue pelos grandes vasos torácicos, o que se constatou não ser verdade. Mais tarde, associou-se tal som a vibrações do palato mole. Atualmente, a teoria mais suportada na comunidade científica relaciona o ronrom com a passagem de ar na laringe.
Pensa-se, assim, que o ronronar resulte de uma ativação altamente regular e alternante do diafragma e dos músculos intrínsecos da laringe a uma frequência normal de 25x/seg, durante a inspiração e expiração. Com efeito, a contração dos músculos laríngeos leva ao encerramento parcial das cordas vocais, da glote. Sucessivamente, estes relaxam e o diafragma contrai, sendo esta contração acompanhada da entrada de ar, que faz as cordas vocais vibrarem, enquanto se abrem, aquando da não contração dos músculos laríngeos. Assim, surge o ronronar: o fluxo de ar modulado, associado a variações de pressão do mesmo, que despoletam vibrações nas cordas vocais. O diafragma volta a relaxar e os músculos laríngeos a contrair, ciclicamente. O processo é repetido até a inspiração estar concluída. A mesma sequência ocorre durante a expiração, mas o diafragma não contrai, pelo que a saída de ar e consequente vibração é alcançada pelo retorno do pulmão ao seu estado inicial.
Cada ronrom é único, diferente de gato para gato e as suas frequências podem variar.
Por que razões ronronam os animais?
As razões pelas quais os gatos ronronam não são ainda totalmente claras e tal tem sido fonte das maiores dúvidas no que toca ao comportamento dos felinos, especialmente dos gatos domésticos.
Os estudos têm revelado que os gatos podem ronronar em todo o tipo de situações e devido a variadíssimos estímulos: desde momentos de satisfação a contextos stressantes e de desconforto (a examinação pelo veterinário, o parto e, até casos extremos, como o período antes de morrer). Assim, ronronar, para além de demonstrar o bem-estar do animal, pode ser também um mecanismo despoletado para manter a calma em situações adversas e gerir o desconforto e a dor.
Para além disso, os gatos podem ainda utilizar este ato como um método de comunicação, em várias circunstâncias. Ronronar poderá ter, segundo vários estudiosos, a função de informar que o animal que o está a produzir não constitui uma ameaça; no caso das crias, incapazes inicialmente de ver e ouvir, aos 2 dias de idade estas podem começar a comunicar com a figura materna e os seus semelhantes da ninhada através do ronrom. Existe ainda um “ronronar de solicitação”, com uma componente de maior frequência, associado a um “miar” ou um “choro”, que altera o ronronar relacionado com o prazer, por exemplo, para um som de carácter mais “urgente”. Tal mudança de frequência leva instintivamente o ser humano a querer ajudar e, tal como pretendido muitas vezes pelo felino, a alimentá-lo. Pensa-se que este ronrom seja entendido inconscientemente como se de um choro de um bebé humano se tratasse, devido às frequências semelhantes.
Por fim, recentemente, surgiu a teoria de que o ronrom tem um papel curativo.
Esta teoria baseia-se no facto de os gatos e de outros felinos, como o serval e o puma, ronronarem a uma frequência entre 25 e 150 Hz. Tal espetro de frequências, de acordo com alguns autores, abrange aquelas usadas em tratamentos com o objetivo de regeneração óssea, de fraturas e de feridas, de crescimento muscular, podendo também estar relacionados com a flexibilidade das articulações, com o alívio da dor, bem como com a diminuição do edema e de controlo da dispneia.
O ronrom será, deste modo, como que um mecanismo curativo interno que permitiria ao animal manter a densidade dos ossos e a firmeza muscular, durante os longos períodos de sedentarismo. No entanto, atualmente, esta é apenas uma teoria, que carece de estudos demonstrativos.
Em suma, ronronar, e de acordo com o que se sabe até ao momento, pode estar associado a várias situações, muito mais complexas e curiosas do que as conhecidas e comprovadas cientificamente.
Bibliografia
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