Stresse e burnout na Medicina Veterinária

A medicina veterinária é uma área que se debate, diariamente, com níveis elevados de stresse, podendo estes culminar, caso não sejam bem geridos, em situações de burnout e depressão.
A elevada taxa de suicídio entre profissionais da Medicina Veterinária é um problema alarmante, cujos números não são novidade, já que desde os anos 70 existe uma grande incidência deste ato neste campo da saúde. Segundo estudos realizados pela Centers of Disease Control and Prevention (CDC), nos Estados Unidos da América, o número de suicídios entre profissionais da área apresentou-se significativo, quando comparado com outras profissões. Contabilizando números referentes a 36 anos, de 1979 até 2015, relativamente à população em geral, constatou-se que as médicas veterinárias eram 3.5 vezes mais propensas a cometer suicídio, enquanto que médicos veterinários do sexo masculino seriam 2.1 vezes mais predispostos. Já no Reino Unido, em 2008, o rácio de mortalidade associada a suicídio dos médicos veterinários, comparativamente à população geral, foi apontado como sendo quatro vezes maior e, quanto às outras profissões de saúde, duas vezes maior. Este complexo tema deve ser abordado, de modo minimizar o problema.
A verdade é que as inter-relações entre trabalho, personalidade e saúde mental estão bem documentadas e muitos estudos têm sido realizados em relação a profissionais de saúde, no entanto, no que toca à medicina veterinária especificamente, têm sido apresentadas apenas observações e opiniões, escasseando investigação para testar a sua veracidade. Deste modo, pouco se sabe acerca da magnitude das consequências negativas, dos fatores predisponentes e dos intervenientes decisivos para os veterinários. Contudo, têm sido referidas várias fontes de stresse, como as mencionadas de seguida.
No dia-a-dia de um hospital veterinário, os profissionais são confrontados com inúmeros focos de elevado desgaste emocional: as longas horas de trabalho têm sido mencionadas na literatura como um fator preponderante, juntamente com uma elevada carga de trabalho, esta que, se associada a uma insatisfação profissional, pode ser muito influente. A estes acresce o relacionamento com o cliente, uma vez que a gestão emocional pode tornar-se ainda mais complicada se houver um conflito entre as suas próprias emoções/expectativas e as dos tutores, sendo necessário um conjunto de técnicas comunicativas que permitam uma interação adequada entre ambos. Somam-se, ainda, os problemas éticos e o contacto com a eutanásia. Se a morte medicamente assistida for referente a um animal com o qual já havia um vínculo, pode ser sinónimo de sentimentos ambivalentes e de conflito emocional. Pressões, talvez não da mesma natureza, mas semelhantes, acontecem em diversas áreas: tomando o exemplo da Inspeção Sanitária, surge a possibilidade de pressões económicas por parte de várias entidades. Assim, os médicos veterinários enfrentam situações associadas a grandes níveis de desgaste, que se conjugam, nalguns casos, com um equilíbrio frágil entre vida profissional e pessoal, numa maior ou menor incidência consoante a área de trabalho.
Assim, podemos identificar 3 problemas relacionados com a prática da medicina veterinária: o burnout, a compassion fatigue e o moral distress.
O Burnout é um síndrome despoletado por um estado de exaustão físico e mental, associado a uma despersonalização, resultantes do exercício da atividade profissional em condições que desencadeiam stresse crónico, este que o trabalhador é incapaz de gerir eficazmente. Isto despoleta uma exaustão emocional, com perda da capacidade de realização pessoal. A primeira fase do Burnout prende-se com a necessidade que o indivíduo sente de provar o seu valor profissional, sendo este exigente consigo mesmo e perfeccionista. No que toca aos estadios seguintes, os sintomas, que variam de indivíduo para indivíduo, incluem isolamento, frieza e irritabilidade, apatia, insónias, cefaleias e enxaquecas, fadiga, transtornos gastrointestinais, perdas de memória, hipertensão e taquicardia.
Já a Compassion Fatigue, por sua vez, é característica de profissões de saúde e prestadores de cuidados. Esta surge quando o profissional lida, diariamente, com pacientes em más condições, em sofrimento, negligenciados e/ou com patologias severas, o que gera sentimentos de compaixão e empatia pelos mesmos. Com a exposição repetida a este tipo de situações, caso não existam estratégias de gestão emocional eficazes, começa a desenvolver-se uma incapacidade emocional de o fazer. Assim, o trabalho passa a ser feito de forma automática, apática.
No que toca ao Moral Distress, este surge quando as ações do médico veterinário vão contra os seus padrões éticos, são antagónicas relativamente àquilo que o profissional acredita que deve ser feito. Isto acontece quando, embora o mesmo saiba quais as decisões a tomar e como as pôr em prática, não o pode fazer. As razões para esta incapacidade podem ser muitas: desde impedimentos financeiros, a ausência de recursos humanos ou materiais, do estabelecimento ou constrangimentos devido a regulamentos internos ou por parte da gerência e, ainda, ausência de formação ou conhecimento insuficiente.
No que toca ao suicídio, vários são os fatores propostos para explicar as suas elevadas taxas entre estes profissionais. O médico veterinário e psicoterapeuta Michael Gaspar alerta para o facto de os números apontados não levarem à conclusão de que a profissão em si gera suicídio, já que este é um problema multifacetado, mas a profissão poderá ser um contributo. Uma revisão (Bartram & Baldwin, 2010) e um estudo do CDC (Center for Disease Prevention and Control), (E. Tomasi et al., 2019), apontam, entre outros, os seguintes fatores:
• O acesso a meios em momentos propícios pode ser o gatilho que influencia a transição desse pensamento para a prática. Os veterinários lidam com fármacos e conhecimento para os aplicar, o que poderá consistir num fator para a alta taxa de suicídio, já que este é um dos métodos mais comuns entre estes profissionais;
• Para além disso, alguns estudos mostram associações positivas entre veterinários e a tolerância para com o suicídio. De facto, os médicos veterinários são frequentemente responsáveis pelo término da vida de animais, por meio da eutanásia ou do abate, tendo estes de discutir, justificar a legitimidade da ação e, por fim, aplicá-la. Ora, tais aspetos, associados à possibilidade de experienciarem tensões desconfortáveis, geradas pelo desejo de preservar a vida e a impossibilidade de tratar eficientemente o animal, poderão ser um contributo, já que estas tensões se poderão tornar mais toleráveis se o veterinário adaptar a sua visão de preservar a vida à aceitação de que a eutanásia poderá ser um desfecho positivo. No entanto, outros estudos têm vindo a desacreditar esta opção, mostrando que tal associação não será empiricamente comprovável (Kinnison, May & Ogden, 2012);
• Podemos atentar ainda a fatores cognitivos e de personalidade. Os indivíduos têm uma preferência para certas profissões de acordo com a personalidade e as experiências de vida. O estudo supranomeado avança a possibilidade das universidades de veterinária selecionarem estudantes com certos traços de personalidade, que aumentam o esse risco, como é o caso do perfeccionismo. Acresce o facto de os veterinários poderem estar particularmente vulneráveis ao suicídio devido à seleção académica baseada em requerimentos muito elevados (aplicável também a outras profissões de saúde), que levam a um ambiente escolar em que alguns questionam as suas capacidades e temem ter as suas fraquezas intelectuais expostas. Na verdade, inseguranças destas predispõem a problemas psicológicos, especialmente naqueles que não são capazes de se adaptar ou de se assegurar de que as suas expectativas são realistas. Em 2005, um estudo constatou que, no primeiro ano, alunos de medicina veterinária, numa escola dos Estados Unidos da América mostraram ter características psicológicas consistentes com outros grupos de alta competição, como atletas profissionais: apresentavam elevados níveis de ansiedade; davam grande valor a comparações com os seus pares e temiam bastante a possibilidade de falhar (Zenner and others 2005). O perfeccionismo imposto pela sociedade (isto é, a crença individual de que os outros têm expectativas irrealistas e exageradas, que precisamos de alcançar para que sejamos aceites), a autocrítica, a preocupação relativa aos erros e as dúvidas em relação às ações têm sido associados com suicídio (O’Connor 2007). Além disso, um dos fatores mais stressantes, no caso dos estudantes é o enorme volume de matéria abordada no curso, em função da velocidade com que têm de a assimilar.
• As taxas de suicídio são também influenciadas pelo género dos profissionais, sendo que, como já dito, na medicina veterinária, a taxa de suicídio em mulheres é mais alta do que em homens, contrastando com a população geral, em que a taxa é três vezes superior no sexo masculino. Na medicina humana, verifica-se a mesma tendência que na veterinária. Outros autores afirmam que esta tendência verificada na veterinária pode ser devido a uma maior empatia emocional das médicas veterinárias (Paul and Podberscek 2000), assim como uma maior preocupação com o bem-estar animal (Serpell 2005) e com a ligação tutor-animal (Martin and Taunton 2005) e as repercussões da doença e da perda nestas relações.
• Como fatores relacionados com o trabalho podem apontar-se os seguintes: os dias de trabalho complicados; a necessidade da prática da eutanásia; o facto de terem de comunicar notícias desagradáveis; de lidarem com expectativas e queixas de clientes; de enfrentarem o aumento nos custos dos cuidados veterinários; de serem submetidos a uma elevada carga de trabalho, assim como a longas horas do mesmo; a possível incapacidade para lidar com a responsabilidade do cargo que desempenham; um rácio dívida/rendimento educacional crescente; o fraco balanço entre vida pessoal e trabalho e o possível burnout;
• Por fim, infelizmente, ainda nos debatemos com um elevado estigma relativo às doenças mentais. Este estigma é magnificado pelo facto de a medicina veterinária ser uma profissão em que não são aceites vulnerabilidades, o que impede, muitas vezes, a procura de ajuda por parte dos profissionais. Segundo Gaspar, os profissionais de saúde tendem a resistir em pedir ajuda, porque consideram isso uma fraqueza.
Em Portugal escasseiam os dados relativos à dimensão da problemática do stresse e do suicídio na profissão. Tendo em conta que as alterações na mesma ao longo dos tempos (associadas à crise ou relacionadas com exigências sociais), bem como o aumento da responsabilidade e carga de trabalho dos veterinários em todas as áreas tenderam a contribuir para o desgaste profissional, a inexistência de dados no nosso país torna-se descabida. Dada a pertinência da problemática, veterinários e psicólogos (Dr. Gonçalo da Graça Pereira; Dra. Sónia Ramalho, Dr. Jorge Oliveira e Dr. Diogo Morais), com o apoio da Veterinária Atual, iniciaram o desenvolvimento de um estudo com o objetivo de procurar esclarecer os fatores de risco e analisar simultaneamente a satisfação e o desgaste profissional da classe veterinária. Os resultados do estudo ainda não foram oficialmente divulgados, no entanto, o Dr. Gonçalo da Graça Pereira menciona os valores como “preocupantes” e acrescenta: “Somos uma classe que não está sequer preparada para identificar os sinais de depressão e de desgaste profissional”. O ensaio mostra ainda a necessidade de estudos complementares, possivelmente a nível europeu, com diferentes especialistas, para que haja uma comparação que permita a identificação dos profissionais que necessitam de um maior apoio psicológico e maior treino de técnicas que lhes permitam suportar a sua saúde mental.
Poder-se-á falar de um estudo semelhante, em Espanha, com uma amostra de 932 veterinários (dos quais, 73,6% do sexo feminino), com uma média de idades de 33,11; em que 22,7% tinha filhos; a maioria (86,2%) trabalhava a tempo inteiro, 35,8% trabalhava em turnos e 65,5% trabalhava em serviços de emergência. Os resultados do mesmo focaram-se na depressão. Assim, de acordo com a DASS (Depression, Anxiety, and Stress Scale) 40,3% da amostra apresentou valores leves a severos de depressão, enquanto 11,1% mostrou padecer de valores severos ou muito severos. Quanto aos fatores analisados, os veterinários com filhos mostraram apresentar níveis significativamente mais baixos de depressão, comparativamente com os que não tinham. Já a idade, o estado civil, o trabalho em turnos, serviços de emergência e regime de trabalho aparentaram não ser fatores. Concluiu-se os médicos veterinários mostraram alta prevalência de depressão quando comparados com a população espanhola (8,56%), embora não se possa fazer uma comparação direta, já que o DASS não foi usado para diagnóstico clínico.
Atentando ao supracitado, dado que o stresse ocupacional pode originar problemas graves a qualquer profissional, nas últimas décadas tem-se dedicado bastante atenção ao desenvolvimento de estratégias de “cuidar do cuidador”. Têm sido sugeridas várias opções de forma a reduzir o stresse inerente a esta profissão, desde instituições criadas para ouvir e lidar com veterinários em situações críticas, até à redução de horas de trabalho, melhoramento das condições de trabalho e um maior apoio garantido a profissionais jovens, de forma a que possam desenvolver a sua maturidade emocional para gerir tais problemas. Países como o Reino Unido e EUA apresentam-se na vanguarda destas estratégias, estando nesses países mais desenvolvidas as plataformas de apoio, que, por exemplo, desenvolvem seminários sobre stresse, burnout e técnicas de gestão da ansiedade para lidar com o problema.
Segundo Miller (JAVMA News, 2004), algumas estratégias para gestão de stresse associadas à prática da veterinária serão as seguintes:
• Cuidar de si próprio; divertir-se regularmente; passar tempo na natureza; encontrar uma técnica de relaxamento que resulte para cada indivíduo;
• Mudar a atitude de como olha para os motivos de stresse;
• Rodear-se de pessoas positivas e encorajadoras;
• Organizar encontros de staff para discutir preocupações e sentimentos;
• Reavaliar os limites que foram desenvolvidos com os clientes;
• Permitir-se o luto pela perda de um paciente;
• Saber quando precisa de pedir ajuda – todos experienciamos frustração ou cansaço em certas ocasiões! – e, se procurar ajuda, optar por um técnico de saúde mental com conhecimento sobre
compassion fatigue, preferencialmente familiarizado com a classe veterinária.
Ainda em 2017, o CDC publicou o Preventing Suicide: A Technical Package of Policy, Programs, and Practices, um conjunto de estratégias e métodos baseados nas evidências disponíveis, que incluem o ensino de capacidades para lidar e resolver os problemas e ainda para identificar e apoiar pessoas em risco. Na verdade, este recurso poderá também ajudar as várias entidades no campo da medicina veterinária a tomar decisões acerca de atividades relativas à prevenção e ao estabelecimento de prioridades na profissão.
Em Portugal surgiu o projeto “Mente Sã, Vet São”, fruto de uma parceria entre a enfermeira veterinária Marília Domingos e o Centro para o Conhecimento Animal. Uma plataforma à qual se pode aceder através do facebook, que pretende disponibilizar apoio, recursos e informação aos profissionais que se confrontem com algum problema na prática clínica, que possam estar a enfrentar uma situação de Burnout ou Compassion Fatigue. Este projeto pretende fomentar a partilha e discussão, anular os tabus e desmistificar os problemas.
Em conclusão, é importante que consigamos olhar para a medicina veterinária como uma profissão de elevado desgaste, de modo a que se possa agir consoante este estatuto e, também, sensibilizar a população em geral, gerando uma maior compreensão por parte de clientes/tutores. Por exemplo, seria muito vantajoso se se começasse a abordar as questões da saúde mental ainda dentro do percurso académico dos estudantes. É fulcral abandonar os tabus e criar um clima de completa compreensão e apoio, para que médicos, enfermeiros e estudantes da área da Medicina Veterinária consigam lidar com os problemas, procurando ajuda sem limitações.
Referências
Bartram, D., & Baldwin, D. (2010). Veterinary surgeons and suicide: a structured review of possible influences on increased risk. Veterinary Record, 166(13), 388-397. doi:10.1136/vr.b4794
Kinnison, M., May, S., & Ogden, U. (2012). Attitudes to animal euthanasia do not correlate with acceptance of human euthanasia or suicide. The Veterinary Record.
Why Is the Suicide Rate Among Vets So High?. (2017). Vice. Available at: https://www.vice.com/en_uk/article/xyk4xd/why-is-the-suicide-rate-among-vets-so-high
González-Martínez, Á., Morais, D., Diéguez Casalta, F. and Da Graça Pereira, G. (2017). Prevalence of Depression in Spanish Veterinarians. Available at: http://www.ecawbm.com/wp-content/uploads/2017/10/ECAWBM-Congress-Proceedings-IVBM-Slovakia-2017-AWSEL-Stream-Slovakia-Valerie-Jonckheer-Sheehy.pdf
Domingos, M. (2018). Mente sã, veterinário são – Cuidar de quem cuida – Veterinaria Atual. [online] Veterinaria Atual. Available at: https://www.veterinaria-atual.pt/na-clinica/mente-sa-veterinario-sao-cuidar-de-quem-cuida/
Lau, E. (2018). CDC study validates concerns about veterinary suicides. News.vin.com.
https://news.vin.com/VINNews.aspx?articleId=51532
