Desafios dos novos animais de companhia: bem-estar, impactos na saúde humana e na sustentabilidade ambiental

Desafios dos novos animais de companhia: bem-estar, impactos na saúde humana e na sustentabilidade ambiental

 

Embora existam diferentes definições de animais exóticos, numa perspetiva geral, estes são animais não-nativos e/ou não domesticados, mantidos em cativeiro. A captura destes animais é praticada há milénios, no entanto, atualmente, existe mais preocupação e legislação quanto ao maneio, métodos de captura e atenção relativamente ao seu bem-estar e ao seu impacto no meio ambiente.
Para compreender a importância e o impacto destes novos animais de companhia é necessário reconhecer que a procura tem feito elevar os números de espécies capturadas e vendidas. Nos Estados Unidos, entre 2000 e 2013, deram entrada 11 biliões de espécimes, sendo que globalmente, este número é representativo do que o mercado movimenta anualmente. Na União Europeia, em 2014, estimava-se que houvesse mais de 240 milhões de animais de estimação. Destes, no que toca a animais exóticos (neste caso, todos os não correspondentes a cães, gatos e equinos), estes corresponderiam a uma percentagem entre 34 e 64%, dependendo do país. Com o passar dos anos, várias novas espécies foram sendo apresentadas, levando a que o consumidor fosse exigindo ainda mais diversidade. Em 2003 foram identificadas 1000 espécies comercializadas mundialmente, no entanto, estudos mais recentes realizados em 2016 e 2017 demonstram um número significativamente maior, tendo sido registadas como comercializadas 4000 espécies de peixes ornamentais de água doce e 2000 espécies de peixes de água salgada. Num estudo da Birdlife International em 2017, foram identificadas 4000 espécies de aves capturadas e posteriormente comercializadas.
A detenção e comercialização de novos animais de companhia por entidades privadas levanta várias questões: quanto ao seu bem-estar e segurança (relacionados com métodos de captura, venda e manutenção em terrários/viveiros em ambiente doméstico); relativos à conservação da biodiversidade (desde a sua retirada do ambiente de origem até à possível libertação em novos ecossistemas), e, ainda, ao risco para o ser humano, tendo impactos na saúde pública: alguns são riscos comuns a todos os animais de companhia, outros mais específicos destas espécies. Trata-se, deste modo, de um assunto controverso, frequentemente criticado.
 

Comércio e sustentabilidade ambiental

A captura e comércio de espécies selvagens internacional geram diferentes problemas. Com o aumento da procura de animais exóticos, mais animais foram capturados e, com isto, houve diferentes riscos de bem-estar em todos os níveis da cadeia de produção: a captura em si, o seu confinamento até ao transporte e este último.
Uma das grandes desvantagens da introdução destas espécies no dia-a-dia prende-se com o facto de, em situações de abandono, poderemos estar a introduzir uma nova espécie num ecossistema não preparado para esta. Espécies invasoras introduzem impactos negativos nos ecossistemas que os recebem, tais como predação, competição, hibridização e introdução de novos agentes patogénicos no ambiente. O comércio destas espécies é uma fonte importante de introdução de novas patologias no ambiente, o que deve ser tido em consideração!

 

Impacto para o ser humano e saúde pública

Relativamente aos prós, um animal de companhia traz benefícios claros para o bem-estar humano, promovendo a saúde psicológica, física e mental. E, embora se possa pensar que este impacto seja só relativo a animais com um valor interactivo alto, como cães, foi comprovado que possuir animais não interactivos ou com uma baixa capacidade de interação pode também melhorar a saúde geral do tutor. Existem, ainda, evidências de que a manutenção destas espécies em cativeiro pode ajudar a melhor compreender o seu comportamento e mesmo o seu papel na disseminação de certas doenças em ambiente selvagem.
No entanto, não deixa de ter as suas desvantagens. Os animais exóticos estão, normalmente, menos domesticados do que o cão ou o gato, culminando tal facto em certos comportamentos mais agressivos. Por exemplo, existem vários episódios documentados de ataques por serpentes de maiores dimensões aos seus tutores. Outro aspecto de salientar é a possibilidade de transmissão e papel como reservatório de doenças, algumas zoonóticas. As principais ameaças são de origem viral e bacteriana, assim como ectoparasitas. Cerca de 0.95% dos casos de salmonelose são atribuídos a transmissão através de répteis de estimação, normalmente mais comum em crianças ou jovens adolescentes (dados referentes ao Reino Unido).

 
Maneio

Um dos parâmetros que devemos procurar melhorar é a manutenção do bem-estar nestes animais de estimação. Um maior conhecimento dos seus comportamentos, das suas necessidades nutricionais e sociais podem levar a uma melhor habituação ao maneio pelos tutores e a uma preservação da saúde, gerando uma maior longevidade destes animais.
Os problemas como seu bem-estar são normalmente separados em duas categorias diferentes: os relacionados com a detenção individual dos mesmos e os associados ao comércio internacional e correspondente transporte.
A manutenção em cativeiro de novas espécies tem revelado o pouco conhecimento que tínhamos quanto às suas necessidades. O já referido aumento de variedade de novos animais de companhia representa um problema relativamente à sua correta manutenção em ambiente doméstico, uma vez que para muitas destas espécies não existe muita informação viável e confirmada dos seus hábitos e necessidades. Um dos grandes defeitos deste aumento de captura é, também, a incorreta caracterização e denominação dada a alguns destes animais, sendo que o consumidor normalmente não está suficientemente informado para discernir se adquiriu a espécie correta.
O desconhecimento de como manter e garantir condições apropriadas a estes animais, leva a números deveras preocupantes de taxa de mortalidade, sendo que em répteis esta pode atingir 75% (Toland et all, 2017) e 90% em peixes de aquário (Toland et all, ainda não publicado). Num estudo realizado em 2016, foram reconhecidos vários casos compatíveis com depressão, ansiedade, aborrecimento, frustração e medo em animais exóticos de estimação, associados aos métodos de conservação utilizados pelos seus tutores.
No entanto, ao contrário do que é pensado, pequenos animais como coelhos e porquinhos da Índia necessitam de grande atenção e cuidados especiais. Os répteis são também animais com um elevado custo de manutenção e com necessidade de cuidados especiais para uma vida longa e saudável, mas demonstraram-se mais compatíveis com a domesticação, o que é explicado pelo fácil acesso a informações de como os manter. Há autores que, apesar disso, defendem que a sua utilização como animais de estimação levanta barreias éticas, já que estes têm necessidade de constante estimulação. Cerca de 21% dos répteis e quelónios apresentados a consulta na Universidade de Ghent em 2013 demonstravam sinais clínicos de patologias relacionadas com mau maneio, tais como Doença Óssea Metabólica (MBD). São ainda apontados outros problemas, relacionados com fontes de calor desprotegidas, humidade incorreta, obesidade e habitação inapropriada.
J. Webster, em 1994, propôs um sistema para avaliação de bem-estar animal denominado de “Five Freedoms” em que estipulava 5 formas de o caracterizar, sendo estas:

 

1.Livre de fome e sede – permitindo rápido e livre acesso a fontes de água e a uma dieta que lhe permita manter saudável, específica para cada espécie
2.Livre de desconforto – providenciando um ambiente apropriado, incluindo abrigo e áreas de descanso
3.Livre de dor, lesões e doenças – medidas preventivas e assegurar que são rapidamente vistos e diagnosticados, caso necessitem
4.Liberdade de expressar o seu comportamento – dando espaço suficiente, instalações corretas e companhia
5.Livre de medo e stress

 

Estas 5 regras são ainda utilizadas atualmente, no entanto, surgem as, denominadas “Five Welfare Needs (FWNs)”, que tentam tornar mais claras estas regras.
Com o avançar dos anos, vários modelos foram criados, com o objetivo de estabelecer a sustentabilidade de domesticar/adotar novos animais. O sistema atualmente mais reconhecido é conhecido por EMODE, que categoriza novos animais de estimação como fáceis, moderados e complicados, considerando a sua capacidade de adaptação ao ambiente doméstico. Este sistema de categorização permite facilitar a escolha por parte de um tutor de escolher um animal de estimação tendo em conta a sua capacidade de adaptação a este, criando menos lacunas no bem-estar destes animais.
Para além do referido, os detentores destes animais devem procurar aconselhamento por parte de um médico veterinário familiar com as espécies, sobre os cuidados a ter, necessidades de alojamento, nutrição e manutenção destas espécies.
Têm sido tomadas medidas a nível europeu de forma a legislar e regulamentar as espécies permitidas como animais de estimação, sendo que em alguns países, como, por exemplo, em França, é agora necessário um certificado de aptidão como tutor de um destes animais. Infelizmente, muitas destas medidas pecam por falta de contexto/evidência.
Em suma, está comprovado que a introdução de novas espécies tem as suas vantagens, no entanto, é necessário uma melhor regulamentação a nível mundial e um melhor controlo na introdução e venda de espécies exóticas nos vários países. A manutenção destes animais em cativeiro deve ser precedida e seguida duma melhor educação/formação dos tutores (como, por exemplo, através do sistema de certificação de apetência), de modo a podermos garantir qualidade de vida a estas espécies. É também necessária a introdução de medidas de controlo sanitário deste comércio. Quando os interesses dos animais são afrontados pelo homem, os veterinários têm o indispensável papel de atuar termos clínicos, mas, ainda mais importante, de potenciar o debate ético e agir como advogados do bem-estar animal.

 
Referências:
 

Exotic pets: is there a problem?. (2013). Veterinary Record, 173(22), 537-538. doi: 10.1136/vr.f7166
 
Pasmans, F., Bogaerts, S., Braeckman, J., Cunningham, A., Hellebuyck, T., & Griffiths, R. et al. (2017). Future of keeping pet reptiles and amphibians: towards integrating animal welfare, human health and environmental sustainability. Veterinary Record, 181(17), 450-450. doi: 10.1136/vr.104296
 
Warwick, C., Steedman, C., Jessop, M., Arena, P., Pilny, A., & Nicholas, E. (2018). Exotic pet suitability: Understanding some problems and using a labeling system to aid animal welfare, environment, and consumer protection. Journal Of Veterinary Behavior, 26, 17-26. doi: 10.1016/j.jveb.2018.03.015