Tratamento terapêutico com itraconazol num felino com esporotricose

A esporotricose é uma doença que apresenta características de uma micose subcutânea, onde o principal responsável pelo desenvolvimento da doença é um fungo nomeado Sporothrix schenkii. É um fungo geofílico, ou seja, encontrado em solos, árvores, madeiras ou qualquer local onde há grandes quantidades de matéria orgânica. O fungo tem a capacidade de se inocular e causar lesões nas mais variadas espécies inclusive em humanos, através de lesões traumáticas por arranhões e mordidas de gatos.
A enfermidade é uma zoonose conhecida como a “doença da arranhadura do gato”, por estar associada à infeção de lesões traumáticas por arranhões e mordeduras de gatos, além de lesões traumáticas perfurantes de pele com objetos ou plantas contaminadas com o fungo anteriormente referido. A espécie felina é caracterizada por ter um maior número de células fúngicas nas lesões, ocorrendo assim uma possível transmissão ao homem.
Tendo em conta que é muito comum a ocorrência de brigas em felinos machos não castrados, observa-se uma maior ocorrência de lesões nestes. Estas brigas e o fácil acesso à rua potenciam a doença. A outra forma de inoculação fúngica, também por lesões traumáticas, está relacionada com locais contaminados como: plantas, madeiras, ou solo, sendo este um dos principais reservatórios do fungo. Neste sentido, é preciso que todos os profissionais ligados a estes locais tenham cautela, estando neste grupo: agricultores, floricultores, jardineiros, mineiros, fazendeiros e médicos veterinários. A doença é considerada uma doença ocupacional e ocasional.
RELATO DE CASO
O caso apresentado é de um felino macho, não castrado, sem raça definida e com quatro anos de idade. O paciente apresentou múltiplas lesões cutâneas arredondadas, ulceradas e profundas, ocorrendo preferencialmente na face e região cervical, com evolução clínica de cerca de 2 meses.
O diagnóstico foi de esporotricose. O animal foi submetido à biópsia por aspiração por agulha fina (CAAF). Foi realizada coloração de panótico rápido para análise citológica. Paralelamente, realizou-se biópsia incisional com o objetivo de colheita de fragmentos de pele. Estes, fixados em formol a 10%, foram enviados para o Laboratório de Patologia Veterinária para histopatologia e processadas para exame histopatológico.
RESULTADOS E DISCUSSÕES
No exame citológico observaram-se estruturas leveduriformes, arredondadas e ovais, envoltas por um halo claro. Estruturas presentes no interior de muitos macrófagos e por vezes dispersos pelo tecido, que são compatíveis com Sporothrix schenkii.
Após o diagnóstico, iniciou-se o tratamento farmacológico com associação de antibióticoterapia e antifúngico: Cefalexina durante 14 dias e Itraconazol® no período de, no mínimo 3 meses ou até a remissão total das lesões. Durante todo o período de tratamento, o animal permaneceu isolado de outros animais, a fim de evitar a transmissão.
A esporotricose é uma doença com distribuição mundial, entretanto apresenta altas prevalências em regiões de clima tropical a subtropical húmido.
Foi realizada uma análise histopatológica com coloração de hematoxilina-eosina e ácido periódico de schiff (PAS). O exame histopatológico permite entre 95 e 100% dos casos identificar o agente etiológico. Com a utilização da coloração, foi observado um difuso infiltrado inflamatório composto por neutrófilos, macrófagos epitelioides, linfócitos e plasmócitos.
O diagnóstico de esporotricose foi baseado nos achados macroscópicos, microscópicos e confirmado pela coloração de PAS. A infeção causada pelo Sporothrix, decorre onde há danos na epiderme em casos de lesões traumáticas sendo, neste caso, uma forma de inoculação filamentosa. Após a qual assume a forma parasitaria, a levedura. Nas brigas entre gatos, estas são inoculadas de forma direta.
Há várias formas de manifestação clínica podendo ser cutânea localizada, cutânea linfática e disseminada. As lesões começam a ser visíveis de 3 dias a 12 semanas após a inoculação, dependendo do estado imunológico do animal.
A forma mais comum observada em felinos são as lesões cutâneas disseminadas, que normalmente estão localizadas nas regiões cefálica, cauda e membros. Após o diagnóstico, deve-se dar início ao tratamento com o uso de antifúngicos, principalmente com os derivados azólicos, como itraconazol e cetoconazol, também se utiliza iodeto de potássio e anfotericina B. Os iodetos têm uso limitado em felinos devido sua toxicidade.
Com o uso de itraconazol observa-se uma boa resposta ao tratamento, levando à cura. Tem sido o medicamento de eleição devido à sua potente ação antifúngica, além de atingir boas concentrações na pele e produzir poucos efeitos adversos quando comparados a outros fármacos.
Após dois meses do tratamento, é visível a resposta de regressão das lesões.
CONCLUSÃO
O conhecimento sobre determinada doença é imprescindível por se tratar de uma zoonose. Paralelamente, deve-se dar a devida importância aos exames complementares, como citologia e histopatologia, auxiliando no diagnóstico da doença.
BIBLIOGRAFIA
