Síndrome vestibular periférica em cães

Síndrome vestibular periférica em cães

 

A síndrome vestibular periférica caracteriza-se por uma disfunção neurológica que afeta o ouvido interno.

SINAIS CLÍNICOS

As manifestações de disfunção vestibular apresentam-se em anormalidades na posição e movimento dos olhos, na posição da cabeça e corpo, tónus muscular e movimentos motores voluntários e são comuns ao sistema periférico e central. Estes podem encontrar-se isolados ou em conjuntos. O propósito da análise neurológica é procurar outros sinais indicativos de lesão a afetar a massa cerebral, comprovando que se trata de um problema central, como reações posturais débeis ou deficiências ao nível de outros nervos craniais. Assim sendo, animais sem estes sinais, apresentam uma lesão periférica (Lorenz & Coates, 2011).

• Head tilt: Caracteriza-se por uma perda do plano horizontal da cabeça do animal em relação ao seu plano sagital. Este sinal é bastante característico de uma doença vestibular, no entanto, em otites externas que provoquem muita dor, pode ser um mecanismo de defesa (Freeman & Ives, 2020). Na maioria dos casos, encontra-se para o lado afetado, assim como quando há perda de equilíbrio, ataxia (Lorenz & Coates, 2011).
• Ataxia vestibular: envolve uma tendência do animal em cair ou inclinar-se para o lado afetado, uma vez que perde o normal funcionamento do tónus musculo extensor, já que este não é mais inibido (Lorenz & Coates, 2011). Também se pode observar um movimento circular para esse lado. Numa situação bilateral, como mecanismo de defesa, tendem a encolher-se e deitar-se (Freeman & Ives, 2020).
• Nistagmos: Movimento involuntário horizontal, rotacional ou vertical dos olhos. Estes movimentos caracterizam-se por fases lentas e rápidas. Quando horizontal ou rotacional, a fase lenta está voltada para o lado afetado (Freeman & Ives, 2020). Com alterações na posição da cabeça, este pode ser induzido por numerosos processos como colocar o animal sobre as costas, tapar-lhe os olhos ou tocar no nariz numa posição vertical. Ao contrário do que acontece na lesão vestibular central, a direção do nistagmo não se deve alterar (Lorenz & Coates, 2011).
• Estrabismo: Posição anormal de um olho. Pode ser fixo, quando está permanentemente alterado ou posicional, quando é relacionado com a posição da cabeça. Numa situação de doença vestibular, não apresenta um estrabismo fixo (Freeman & Ives, 2020). Quando a cabeça é levantada, um estrabismo ventral ipsilateral à lesão é visível. Uma vez retornada a cabeça à posição normal, o estrabismo desaparece. É um sinal que não nos permite garantir que o problema é periférico, já que surge em síndromes centrais (Lorenz & Coates, 2011).

ABORDAGEM NEUROLÓGICA

• Atividade mental: Em casos de síndrome vestibular periférica, a atividade mental do animal deve-se encontrar normal. Com exceção das situações em que o animal se sente desorientado e/ou com náuseas, demonstrando-se aparentemente deprimido (Freeman & Ives, 2020).
• Locomoção e postura: “Head tilt” para o lado afetado e ataxia vestibular são sintomas que podem ser encontrados em casos de síndrome vestibular (Freeman & Ives, 2020). Em alguns casos, vendar o animal pode acentuar a inclinação. Em casos de síndrome vestibular unilateral, as lesões causam uma perda do tônus extensor ipsilateral e os animais caem para o lado da lesão. Além disso, andar em círculos é geralmente um sinal de disfunção vestibular (Lorenz & Coates, 2011)
• Reações posturais: Devem-se manter normais (Freeman & Ives, 2020).
• Nervos craniais: Nistagmo e/ou estrabismo posicional podem ser expectados em fases mais precoces da síndrome vestibular periférica. Além disso, torna-se importante relembrar que o nervo cranial VII (nervo facial) e os nervos simpáticos do olho passam adjacentes à bolha timpânica e que esta não se encontra separada do osso da cavidade do ouvido médio. Assim, é comum a paralisia devida ao nervo facial e/ou a síndrome de Horner em casos de otite média/interna (Freeman & Ives, 2020).
• Reflexos espinhais: Devem-se manter normais (Freeman & Ives, 2020).
• Palpação à dor: É normal, com exceção de casos de otite média/interna ou em animais com inflamação cerebral uma vez que nestes casos, há uma maior sensibilidade à dor (Freeman & Ives, 2020).

DIAGNÓSTICOS DIFERENCIAIS

• Trauma: Dano na bolha timpânica (Freeman & Ives, 2020).
• Tóxicos: Mais de 180 substâncias químicas e farmacológicas foram identificadas como ototóxicas, apresentando toxicidade variável podendo afetar o sistema vestibular, auditivo ou ambos. O tratamento tópico de otites bem como a administração de aminoglicosídeos pode conduzir à síndrome vestibular periférica (Freeman & Ives, 2020).
• Anomalias: Síndrome vestibular congénita – foi descrita em algumas raças nomeadamente pastor alemão e dobermann pinscher (Freeman & Ives, 2020).
• Metabólico: Hipotiroidismo – as evidências que demonstram que o hipotiroidismo pode causar doença vestibular periférica são poucas, contudo alguns casos de sinais de síndrome vestibular foram encontrados como resposta à suplementação tiroidea em cães diagnosticados com hipotiroidismo (Freeman & Ives, 2020).
• Síndrome vestibular idiopática (Freeman & Ives, 2020).
• Neoplásico: Podem afetar os componentes periféricos devido à destruição e/ou compressão das estruturas vestibulares periféricas e, também, pela resposta inflamatória que pode ser desencadeada. Entre as neoplasias mais comuns destacam-se: linfoma, adenocarcinoma da glândula ceruminosa e carcinoma das células pavimentosas (Freeman & Ives, 2020).

BIBLIOGRAFIA

  • D.Lorenz, M., & R.Coates, J. (2011). Handbook of VETERINARY NEUROLOGY.
  • Freeman, P. M., & Ives, E. (2020). A Pratical Approach to Neurology for the Small Animal Practitioner.