Abordagem ao paciente com febre de origem indeterminada

A expressão “febre de origem indeterminada” é comummente usada estando perante síndrome febril sem um possível diagnóstico para a mesma.
Em Medicina Veterinária, as causas mais frequentes para este processo prendem-se com infeções, doenças imuno-mediadas e tumores. Apesar disso, em cerca de 10-15% dos casos em pequenos animais não é de todo possível determinar a causa.
Abordagem por três etapas
Um paciente com febre de origem indeterminada deve ser abordado de forma sistemática. O diagnóstico deve repartir-se em três etapas. A primeira etapa consiste na recolha de toda a história pregressa, exame físico completo e análises: incluindo hemograma, perfil bioquímico, urianálise, cultura de urina e PAAF em caso de presença de organomegália, massas ou dilatações.
Na segunda etapa são realizados exames adicionais como radiografias, ecografias, ecocardiografia, testes serológicos, cultura de sangue, testes de imunidade (ex: ANA, fator reumatoide), biópsias, aspirações medulares, entre outros que se possam aplicar.
No caso de as etapas anteriores não terem sido conclusivas prossegue-se para a terceira etapa. Nesta última fazem-se ensaios terapêuticos nos quais se institui um tratamento farmacológico recorrendo a antibioterapia, corticosteróides ou anti-piréticos.
Importância da história pregressa
A história pregressa isolada raramente nos indica a causa do episódio febril. Apesar disso, há certos fatores da mesma que podem encaminhar a nossa linha de raciocínio clínico. Por exemplo, a administração prévia de tetraciclinas pode ser indicativo de febre induzida por fármacos, histórico de carraças pode indicar infeções por hemoparasitas ou rickketsias ou se o animal tiver viajado para outros países, pode requerer um estudo de doenças endémicas a que o animal possa ter sido sujeito.
Durante o exame físico é crucial a palpação dos linfonodos e órgãos linfoides, como o baço, uma vez que estes são muitas vezes alvo de agentes infeciosos e tumores que podem desencadear febre.
Exames Laboratoriais
Quando for realizado hemograma, este deve vir sempre acompanhado de uma avaliação de esfregaço de sangue para observação de alterações morfológicas e avaliação da presença de agentes infeciosos. O soro pode ser útil para testes serológicos ou medição de ácidos biliares. Estes últimos devem ser sempre medidos uma vez que em cães com shunts-portossistémicos a febre pode ser o único sinal clínico evidente.
A urianálise com cultura também está indicada para todos os pacientes com febre de origem indeterminada. Tal como a cultura de sangue, principalmente para animais com sopros cardíacos, infeções do trato urinário, poliartrite, entre outras condições que podem advir de uma endocardite.
Conforme o caso, são diversos os restantes exames que têm de ser realizados para encaminhar o diagnóstico.
Tratamento
Se se chegar a um diagnóstico definitivo, a terapêutica específica deve ser iniciada. Quando o clínico não consegue chegar a um diagnóstico conclusivo e os resultados das culturas bacterianas e/ou fúngicas, testes serológicos, PAAFS e imagiologia deram negativos, procura-se instituir uma terapêutica farmacológica. Em primeiro lugar recomenda-se instituir antibioterapia de largo espetro e posteriormente deve ser ponderada a terapêutica imunossupressora.
Previamente a instituir esta terapêutica os tutores devem ser devidamente informados dos riscos que o animal corre (por exemplo, em caso de infeção bacteriana poder haver disseminação do agente).
A terapêutica imunossupressora, comummente instituída, recorre a glucocorticoides. Os pacientes intervencionados devem ser internados ou monitorizados frequentemente de modo a avaliar se há evolução da sintomatologia clínica. Caso haja agravamento dos sinais clínicos, a terapêutica deve ser descontinuada.
Nos pacientes com doença imuno-mediada, a febre e os sinais clínicos desaparecem ao fim de 24-48 horas após início do tratamento. Se não se observar resposta aos glucocorticoides há duas possíveis linhas de ação: na primeira, o paciente tem alta e são-lhe receitados anti-piréticos (ex: aspirina) e feita uma reavaliação em 1-2 semanas. É importante referir que os anti-piréticos não esteroides apresentam diversos efeitos adversos que o clínico tem de ter em consideração ao optar por esta linha de ação. A segunda opção é continuar o ensaio de antibióticos usando uma combinação de fármacos bactericidas por um período de 5 a 7 dias.
Bibliografia
https://www.vetfolio.com/learn/article/the-diagnostic-approach-to-fever-of-unknown-origin-in-dogs
W.Nelson, Richard, e C.Guillermo Couto. 1998. “Fever of Undertermined Origin .” Em Small Animal Internal Medicine , de Richard W.Nelson e C.Guillermo Couto. Mosby.
