Cistite Idiopática Felina

Cistite Idiopática Felina

Cistite Idiopática Felina

A Cistite idiopática felina (CIF) é relatada, por vários estudos, como a causa mais frequente de doença do trato urinário inferior felino (DTUIF). 55-69% dos gatos diagnosticados com DTUIF sofrem de CIF, e 15,0 -57% destes gatos agravam o seu quadro clínico por obstrução uretral sem urolítiase, sendo provavelmente causados por tampões mucosos ou proteicos ou espasmos uretrais.

Apesar dos mais diversos estudos desenvolvidos no sentido de esclarecer a etiologia e patofisiologia da CIF, elas ainda não são verdadeiramente conhecidas e aceites por toda a comunidade científica. Para já, considera-se que resulta de interações entre o Sistema Nervoso Central e o Sistema endócrino, levando a uma inflamação crónica e recorrente da bexiga.

São amplamente aceites como fatores de risco para a ocorrência de CIF: idade inferior a 10 anos, castração, habitar no interior, uma condição corporal elevada, maior número de gatos no mesmo espaço, menor nível de atividade, ingestão baixa de água, utilização de caixa de areia, alimentação essencialmente constituída por ração seca, enriquecimento ambiental insuficiente e episódios stressantes para o animal.

A qualidade de vida dos gatos que sofrem desta patologia está gravemente comprometida, resultando em taxas de mortalidade de cerca de 12,5% e quando se trata de casos com episódios obstrutivos aumenta para 26%, estes valores contam com uma grande percentagem de eutanásias devido à dificuldade em controlar os sinais clínicos e as recidivas do quadro. Em 2019, Kaul, E., Hartmann, K., Reese, S., & Dorsch, R. desenvolveram um estudo que seguiu 52 gatos diagnosticados com CIF durante cerca de 3 anos e registaram uma taxa de hospitalização de cerca de 80,8%, uma taxa de recorrência de 61,5%, sendo 46,2% delas ocorreu durante o 1º ano após o diagnóstico.

Assim como a fisiopatologia ainda não está completamente esclarecida, o tratamento continua a ser alvo de discussão e estudos. Os casos obstrutivos constituem urgências, e é crucial desobstruir o paciente para depois seguir com o tratamento. Nos casos não obstrutivos é recomendado disponibilizar enriquecimento ambiental, especialmente nos gatos que vivem indoor (promovendo comportamentos naturais como caçar, brincar, locais onde se possa esconder, entre outros) e métodos que reduzam os níveis de stress, como pulverização do ambiente com feromonas faciais felinas ou o uso de suplementos ou rações que promovam a diminuição dos níveis de ansiedade. É necessário estimular o consumo de água, para isso podemos recorrer a alimentação húmida e fontes de água; parte essencial da terapia é fazer a transição para uma alimentação urinária terapêutica que tem como objetivos: diminuir a concentração de mediadores pró-inflamatórios na urina e minerais que cristalizem, ajuda a diminuir a retenção de cristais no trato urinário e ajuda à dissolução dos mesmos. Ao nível farmacológico, há descrição do uso de amitriptilina que tem uma ação anticolinérgica, funcionando assim como antidepressivo, tem ainda propriedades anti-inflamatórias e analgésicas. Embora a sua evidência ainda seja muito insuficiente há autores que descrevem o uso de glucosaminoglicanos, alegando uma influência positiva no quadro clínico, atuando ao nível da parede da bexiga.

Bibliografia
Jones, E., Palmieri, C., Thompson, M., Jackson, K., & Allavena, R. (2021). Feline Idiopathic Cystitis: Pathogenesis, Histopathology and Comparative Potential. Journal of Comparative Pathology, 185, 18–29;
Lew-Kojrys, S., Mikulska-Skupien, E., Snarska, A., Krystkiewicz, W., & Pomianowski, A. (2017). Evaluation of clinical signs and causes of lower urinary tract disease in Polish cats. Veterinární Medicína, 62(No. 7), 386–393;
Forrester, S. D., & Towell, T. L. (2015). Feline Idiopathic Cystitis. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice, 45(4), 783–806.;
Kaul, E., Hartmann, K., Reese, S., & Dorsch, R. (2019). Recurrence rate and long-term course of cats with feline lower urinary tract disease. Journal of Feline Medicine and Surgery, 1098612X1986288;
Forrester, S., & Kruger, J. (2017). Chapter 46, Part 1: Overview of Feline Lower Urinary Tract Diseases.;
Heseltine, J. (2019). Diagnosing and Managing Feline Lower Urinary Tract Disease [Review of Diagnosing and Managing Feline Lower Urinary Tract Disease]. Today Veterinary Practise, 43–52. CONTINUING EDUCATION. Retrieved April 25 C.E.