Dirofilariose Felina

A dirofilariose é causada pelo helminte Dirofilaria que é transmitido por um hospedeiro intermediário obrigatório, o culicídeo. O cão é o hospedeiro definitivo e, o homem e o gato, surgem como hospedeiros acidentais.
A prevalência da dirofilariose na Europa tem vindo a aumentar devido a vários fatores, tais como as alterações climáticas que criam condições para que os vetores se possam desenvolver, aumento do transporte de animais de companhia (que podem ser portadores de microfilárias), aumento do número de animais abandonados e resistência a inseticidas.
Existe um risco 5 vezes superior de infeção por Dirofilaria em animais com acesso ao exterior ou que contactam com animais errantes.
Em Portugal, o Algarve é a região com o maior número de casos caninos, seguida do Alentejo e Centro. O Norte e Lisboa, são as regiões onde há menor prevalência. No caso dos gatos, um estudo na região de Lisboa demonstrou uma prevalência de cerca de 1,5%.
O ciclo da Dirofilaria immitis é heteroxeno, com uma duração de 6 a 9 meses. O culicídeo fêmea alimenta-se de sangue infetado com microfilárias e estas migram para o intestino e tubos de malpighi do hospedeiro intermediário, evoluindo para larva L2 ao décimo dia. O estadio de L3 surge 13 dias após a refeição, em que migram para as probóscides do culicídeo. Quando o culicídeo faz uma refeição no hospedeiro definitivo, as larvas L3 entram pelo local da picada e iniciam uma migração para o tecido subcutâneo e muscular a nível do tórax. Evoluem para L4, 3 a 4 dias após a entrada no hospedeiro definitivo e, após 70 ou mais dias, para L5. Quando as larvas L5 atingem os pulmões, seguem com a pressão sanguínea para as artérias pulmonares e, quando maiores, para artérias de maiores dimensões no coração.
Caso haja parasitas adultos de ambos os sexos, são produzidas microfilárias que permanecem em circulação na corrente sanguínea.
A dirofilariose felina assume um comportamento bastante diferente da dirofilariose canina.
Os cães têm uma maior suscetibilidade à infeção, com uma microfilariémia pesistente em cerca de 80 a 90% dos casos. Os gatos têm uma microfilariémia transitória (cerca de 1 mês) e que ocorre em menos de 20% dos felinos, uma vez que é comum infeções de sexo único nos felinos, ao contrário dos caninos. O número de adultos no hospedeiro é muito superior no cão (mais de 30 adultos), sendo que no gato normalmente é inferior a 6 adultos (normalmente 1 a 2). A longevidade dos parasitas é de cerca 2 a 3 anos nos gatos e 5 a 7 anos nos cães e, enquanto no cão tanto os pulmões como o coração são afetados, nos gatos apenas são os pulmões.
No caso dos felinos, as larvas L5 muitas vezes fazem migrações erráticas para o sistema nervoso central.
Os gatos podem também ser assintomáticos e a forma crónica é a mais frequente, onde exibe perda de peso, anorexia, letargia, intolerância ao exercício, dispneia, ascite, tosse, vómito, diarreia, sinais de insuficiência cardíaca direita e síncope.
A radiografia torácica apresenta aumento e tortuosidade das artérias pulmonares caudais e alterações no parênquima pulmonar. A ecocardiografia provou ser um método mais sensível em gatos que em cães, mas a angiografia pulmonar é o método mais eficaz, demonstrando os parasitas radiopacos intravasculares e o aumento das dimensões das artérias pulmonares.
A prevenção da dirofilariose felina é discutível tendo em conta que a incidência nesta espécie é baixa.
Os felinos não realizam a terapêutica microfilaricida como os cães, uma vez que normalmente são amicrofilarémicos, no entanto ivermectina ou milbemicina oral podem ser administradas mensalmente, sendo que as microfilárias devem ser inexistentes 3 a 12 meses após o início do tratamento.
A terapêutica adulticida é controversa, uma vez que tiacertasamida pode levar a edema, insuficiência respiratória, tromboembolismos e morte.
O que se aconselha é uma terapêutica de suporte com corticoesteroides para controlar os sinais respiratórios. É conhecida uma simbiose entre o parasita e a bactéria Wolbachia, que se pode usar no tratamento, visto que a eliminação da bactéria inibe o desenvolvimento larvar e provoca a esterilidade das fêmeas. Assim, a administração de doxiciclina permite que os gatos convivam melhor com a doença, apesar de não a curar.
