Emergências reprodutivas em bovinos: Prolapso uterino

Emergências reprodutivas em bovinos: Prolapso uterino

O que é e como se desenvolve um prolapso uterino?
Nos bovinos, o prolapso uterino é caracterizado como a exteriorização do útero através do canal vaginal durante ou após a terceira fase do parto (expulsão do vitelo). Quando presente, a superfície do endométrio e o sistema vascular do útero ficam expostos ao ambiente podendo surgir infeção e gangrena. Este distúrbio reprodutivo afeta principalmente bovinos e pequenos ruminantes e apresenta uma prevalência mundial de 0,2 a 0,9% em bovinos de leite. Normalmente, o prolapso surge nas primeiras duas horas após o parto quando os cotilédones fetais se separam das carúnculas maternas. De acordo com alguns autores, o desenvolvimento de prolapso uterino apresenta sazonalidade, sendo mais comum durante o outono e inverno. Demonstra também maior incidência em bovinos de leite, mais concretamente nas vacas multíparas, confinadas e alimentadas em excesso.

Atualmente, a etiologia deste distúrbio reprodutivo permanece desconhecida, embora se saiba que tem origem multifatorial. Pensa-se que o principal fator da ocorrência de prolapsos uterinos esteja relacionado com a ausência de contrações uterinas (atonia uterina).
Fatores predisponentes incluem: Estrogénios no pasto; Decúbito prolongado; Inercia uterina; Condições meteorológicas extremas; Hipertrofia fetal; Desnutrição (défice de Ca, PO₄³⁻, Mg); Distocia; Obesidade; Tração excessiva do feto; Tenesmo; Retenção das membranas fetais; Confinamento.

Sinais clínicos
Os sinais clínicos evidenciados por bovinos com prolapso uterino são característicos. Normalmente as vacas apresentam-se em decúbito lateral e a ocorrência de timpanismo ruminal é elevada. No entanto, menos frequente também se observa vacas em estação onde é possível ver a eversão do útero até aos jarretes. As complicações que podem resultar do prolapso uterino são toxemia; septicemia; hemorragia que surge como resultado da rutura do mesovario e da artéria ovariana; rutura do útero e subsequente rotura da bexiga ou do intestino; metrite puerperal e peritonite. Os bovinos que experienciaram prolapso uterino, apresentam diminuição da fertilidade e da vida útil, assim como aumento da duração do parto e dos intervalos entre partos.

Diagnóstico
É possível diferencial o prolapso uterino de um prolapso vaginal pelo volume do órgão exteriorizado e a evidencia das carúnculas maternas. O diagnóstico definitivo é baseado fundamentalmente nos sinais clínicos e através da inspeção das estruturas uterinas e dos anexos placentários.

Tratamento
A correção do prolapso implica recolocação uterina em sua posição anatómica normal. Previamente à chegada do medico veterinário, o produtor deve ser aconselhado em realizar a contenção da vaca e a envolver o útero desta com uma toalha ou lençol húmido para evitar contaminação ambiental e trauma uterino. Em seguida é administrado um analgésico, anestesia por via epidural (lidocaína a 2% na dose 1mL/100kgPV) para evitar contrações abdominais, e se necessário um sedativo. Idealmente a vaca deve estar em estação, mas quando não é possível, deve ser posicionada em decúbito esternal com ambos os membros posteriores estendidos caudalmente. Vacas em estação apresentam melhor prognóstico do que as vacas em decúbito. A cauda da vaca deverá ser amarrada lateralmente e o peso do órgão prolapsado deve ser apoiado sobre algum local. Em seguida, os cotilédones fetais devem ser separados cuidadosamente sem causar dano às carúnculas para reduzir o peso do útero. O útero deve ser limpo com água morna e deve se suturar as lacerações. Posteriormente, é feita a antissepsia da superfície do útero com clorexidina a 1%. A palpação do órgão prolapsado deve ser feita antes da sua recolocação para detetar a presença de bexiga distendida, que caso esteja presente deverá ser esvaziada através de uma punção. O uso de substancias higroscópicas (açúcar, sal) ajudam na redução do edema do endométrio, no entanto, devendo ser removidas ao fim de 5 minutos após a sua aplicação devido ao risco de trauma adicional. A recolocação do útero em sua posição anatómica deverá ser iniciada pela vulva. A realização de suturas de retenção na vulva podem ser consideradas para prevenir o risco de recorrência de prolapso. A sutura de Bühner é a mais utilizada em prolapsos uterinos, e consiste na realização de uma sutura de bolsa de tabaco. Todavia, a execução de suturas, implica uma reavaliação do paciente após 12 a 24h e a sua remoção entre 2 a 3 dias após a recolocação uterina. A histerectomia é um procedimento que está indicado quando a vaca apresenta um útero muito traumatizado ou gangrenoso que possa colocar a sua vida em risco. Após a histerectomia deve-se administrar um toxoide antitetânico, AINEs e antibióticos. No pós-operatório recomenda-se a administração endovenosa de 150–300 mL de borogluconato de cálcio mesmo que o animal não exiba sinais de hipocalcemia, AINEs e antibióticos sistémicos durante 2 a 4 dias.

Prevenção
A prevenção deste distúrbio reprodutivo consiste em evitar reproduzir fêmeas predispostas a prolapso, realizar um bom maneio nutricional para evitar o excesso de peso e défices nutricionais no momento do parto, a suplementação de cálcio para prevenir hipocalcemia e a eliminação de fontes de estrogénio no pasto.

Prognóstico
O prognóstico do bovino com prolapso uterino pode ser variavel e deve ter em consideração o tipo de causa que desencadeou o seu aparecimento; comprometimento ou não do útero; duração do prolapso antes de iniciar o tratamento; presença de lesões graves em órgãos como a bexiga ou ansas intestinais e a ocorrência de hemorragia dos grandes vasos sanguíneos que irrigam o útero. Quando há intervenção veterinária precoce e tratamento, apresenta bom prognóstico e uma taxa de sobrevivência de 80% sendo que por norma, a recorrência de prolapsos uterinos não acontece.

Bibliografia
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