Vou levar o burro ao dentista

O comportamento da dor em burros é mais subtil do que em cavalos e póneis, e as respostas em condições dentárias podem realmente estar ausentes ou não ser reconhecidas. No entanto, a doença dentária em burros é registada como a segunda condição mais comum no Reino Unido. Em muitos casos, os burros raramente fazem exames odontológicos regulares, por razões económicas em burros de trabalho, por exemplo e, possivelmente pela falta de experiência disponível em algumas comunidades. Contudo, no burro doméstico, muitas vezes é devido à falta de educação sobre a necessidade de tratamento e cuidados preventivos regulares.
Num exame inicial à boca de um burro, devemos começar por observar e palpar externamente, seguido de um exame meticuloso intra-oral. O exame extra-oral serve para avaliar simetrias/assimetrias craniais e reações à palpação nas diferentes áreas, bem como lesões exteriores. Estes achados podem dar informações sobre a saúde do animal, mas também a presença de doenças dentais. Associado à descoberta de patologias, podemos conferir a idade dos animais e ponderar possíveis doenças sistémicas.
Isto é importante, pois os burros, tal como os cavalos, estão mais suscetíveis a certas doenças da cavidade oral, pela sua própria anatomia, fisiologia e mecanismos de alimentação.
Os burros são animais anisognatas, ou seja, tem a maxila de maior largura que a mandíbula (a maxila é 30% mais larga que a mandíbula) o que predispõe a várias doenças por si só. Para além disso, um fator muito importante é que, associado à fisiologia da boca do animal, provoca uma variedade de alterações na cavidade oral, e a forma como movimentam a articulação temporomandibular durante o processo de mastigação: movimentos laterais, essencialmente.
Uma das patologias mais comuns são as chamadas “pontas de esmalte”. Isto acontece porque os dentes destes animais são de erupção continua, logo vão erupcionando ao longo dos anos e, como não são desgastados de forma igual, devido a serem anisognatas e ao seu movimento de mastigação, acabam por ter um “sobrecrescimento”: nos dentes maxilares será na face vestibular (bochecha) e nos dentes mandibulares, na face lingual (face interna). Estas pontas vão condicionar o seu desempenho, visto que causam dor, quer ao alimentar, quer ao colocar os cabeções. Pode acontecer nos dentes incisivos e, maioritariamente, nos pré-molares e molares.
Assim, uma das maiores preocupações do médico veterinário é evitar estas situações, marcando consultas de cerca de 6 em 6 meses (pois os dentes erupcionam cerca de 2-3 mm por ano), podendo ser alargado para 9-12 meses, de forma a avaliar ou, caso seja necessário, tratar esta patologia. Em relação ao tratamento, é uma situação relativamente fácil de ser resolvida, com recurso a limas manuais ou elétricas, abre-bocas, espelho dentário e uma boa fonte de luz.
Em suma, estes animais estão bastante condicionados por problemas dentários, não só as “pontas de esmalte”, mas muitos outros e, por isso, é necessário um cuidado redobrado com check-ups regulares.
Bibliografia
Pascoe, Rob; The Clinical companion pf donkey dentistry, 1 Edition – Donkey Sanctuary Course – donkey academy*
*Este artigo foi baseado num curso promovido pelo The Donckey Sanctuary no ambito do “memorandum of understanding” entre a Universidade de trás dos montes e alto douro e o “The Donckey Sanctuary”
