As riscas das zebras

As riscas das zebras

A estriação preta e branca característica da pelagem das zebras sempre foi algo que intrigou muitos biólogos e outros cientistas. Após mais de um século de pesquisa, ainda hoje não há certezas de qual a relevância evolutiva destas riscas na adaptação da espécie.
Enquanto o debate continua entre a comunidade científica, os mais recentes estudos têm avaliado três principais hipóteses para a funcionalidade das riscas das zebras: proteção contra insetos picadores, ação termorreguladora e proteção de predadores.

As moscas e insetos sugadores e picadores são uma grande ameaça para os animais em África. As moscas tsé-tsé e moscas da família Tabanidae são agentes transmissores de doenças como a Peste Equina Africana e a Influenza Equina. Os pelos que revestem a zebra são muito finos pelo que não constituem uma boa barreira para a picada de moscas. Mas a verdade é que, análises realizadas à dieta de moscas tsé-tsé não encontraram vestígios de sangue de zebra.
Um estudo realizado por Tim Caro e a sua equipa de investigação em 2019 comparou o comportamento de insetos picadores ao redor de zebras e cavalos. Aos cavalos foram colocados cobrejões pretos, brancos ou listrados. O que se observou foi que as moscas pairaram em torno das zebras e dos cavalos em quantidade semelhante mas, no que toca a pousar, muito menos moscas pousaram em zebras ou cavalos listrados.
Através da visualização de vídeos, os investigadores conseguiram perceber que as moscas tentavam pousar nas riscas mas falhavam em desacelerar como por norma fazem quando se aproximam de uma superfície sem riscas. Desse modo, quando a mosca tentava pousar na risca, sofria ricochete.

Há muito que os cientistas investigam o papel das riscas da zebra na termorregulação. A hipótese inicial sugerida era que as riscas pretas absorveriam calor permitindo o aquecimento do animal enquanto que as riscas brancas fariam reflexão da luz permitindo com isso o arrefecimento nas horas de maior calor. Apesar de ser um raciocínio lógico, houve divisão na comunidade científica a este respeito.
Em 2014, Tim Caro e a sua equipa descobriram apenas uma fraca sobreposição espacial entre o padrão das listras e as temperaturas máximas. Um ano depois dessa investigação, um outro estudo liderado por Brenda Larison da Universidade de Califórnia encontrou padrões de riscas mais fortes em áreas mais quentes ou que recebem luz solar mais intensa. Até então, não havia mais estudos com conclusões significativas. Em 2019, os Cobbs relataram no Journal of Natural History que, durante as horas mais quentes do dia, as riscas pretas em zebras vivas estavam consistentemente 12 a 15ºC mais altas do que as riscas brancas. Adicionalmente, relataram ainda que os pelos das riscas pretas se eriçam durante o início da manhã e a meio do dia. Tal permite sugerir que a ereção dos pelos pode ser para reter o calor na manhã fria e facilitar a evaporação do suor a meio do dia.

No que toca à proteção de predadores, os dados são muito mais escassos e muitos investigadores são céticos quanto a isso. As zebras passam a maior parte do seu tempo em pastagens abertas onde as suas riscas são visíveis e pouco tempo em floresta, onde as suas riscas podem ajudar na camuflagem. Além disso, as zebras são animais que tendem a fugir da ameaça e não a esconder-se da mesma. Adicionalmente, os leões parecem não ter problemas em caçar e comer muitas zebras.
Apesar de todo o ceticismo, Rubenstein ainda está a trabalhar na hipótese da predação. A sua inspiração vem de estudos prévios que demonstraram que as riscas confudem os humanos. O que ele procura perceber agora é se as riscas confundem também os leões, para isso, a sua equipa de investigação está a estudar qual a reação dos leões a objetos com riscas e sem riscas.

Assim, o mais provável é que as riscas tenham evoluído para colmatar não só um, mas vários problemas. Para já, há algumas confirmações da sua função mas ainda há muito por se descobrir.

Bibliografia
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