Afinal porque mudam de cor os camaleões?

Afinal porque mudam de cor os camaleões?

 

Embora a maioria dos animais tenha uma cor relativamente fixa (devido a tecidos mortos, como o exoesqueleto, escamas, penas ou pelo), alguns deles têm a capacidade de mudar fisiologicamente e de maneira rápida de coloração, o que lhes permite mostrar diferentes cores de acordo com os contextos ambientais a que são expostos, como predadores, temperatura, humidade e local onde se encontram. Uma pequena taxa (maioritariamente cefalópodes, peixes e répteis) ainda é capaz de mudança de cor durante interações intra-específicas.
 
Os camaleões (Squamata: Chamaeleonidae) representam um objeto interessante de estudo, porque, ao contrário da maioria dos animais, que realizam mudanças de cor localizadas ou alterações de padrões acromáticos, estes exibem mudanças de cor complexas durante interações sociais. A complexidade da mudança de coloração dos camaleões pode permitir-lhes uma oportunidade de sinalização dinâmica, através de diferentes elementos cromáticos corporais, revelando diferente informação, tanto durante interações sociais, como em diferentes contextos comportamentais.
 
Diferentes espécies de camaleões possuem diferentes cores basais. As camadas de pele têm uma influência hormonal. A porção exterior do tegumento corresponde a uma camada transparente, abaixo da qual existem duas camadas bem demarcadas de pigmentos vermelhos e amarelos, em células chamadas cromatócitos. Na camada que se segue a essa há iridóforos, células responsáveis pelos tons de verde com aspeto metálico, azuis, e colorações douradas e prateadas, vistas nalgumas espécies. As células com conteúdos em melanina encontram-se na camada basal da epiderme. Para que haja mudança de cor os cromatóforos ou encolhem ou expandem. Por exemplo, um camaleão numa situação de stress apresenta uma coloração mais escura, devido ao comportamento da melanina. Já quando os camaleões machos precisam de intimidar outro macho ou atrair uma fêmea expressam as suas cores mais vívidas.
 
Um estudo de 2008 (Stuart-Fox & Moussalli, 2008) pretendeu esclarecer o que motivava as mudanças evolucionárias da coloração dos camaleões sul-africanos do género Bradypodion. Este mostrou que as mudanças estariam relacionadas com o aumento da percetibilidade dos sinais usados nos confrontos entre machos e na corte da fêmea. No sistema visual dos camaleões, as espécies que apresentam as mudanças mais dramáticas de cor, possuem sinais sociais que contrastam mais relativamente ao plano de fundo ambiental e relativamente às porções corporais adjacentes. No entanto, o estudo não encontrou evidências para a hipótese, usualmente lançada, de que estes mudam de cor para se camuflarem (crypsis hypothesis), o que foi, ainda, suportado pelos modelos visuais de como os camaleões e as aves, suas predadoras, compreendem as mudanças de coloração destas presas, que pressupõe a forte seleção para a detetabilidade dos sinais.
 
Já em 2013, Ligon & McGraw usaram métodos fotográficos e analíticos, assim como modelos visuais organismo-específicos para examinar a dinâmica da mudança de cor veiculada pelos camaleões. Esta mudança será importante, pois, embora os animais tenham objetivos aquando dos conflitos, é benéfico que evitem prolongar/intensificar esses conflitos desnecessariamente. Desta maneira, os sinais dinâmicos proporcionados pela mudança de colorações poderão permitir aos participantes comunicar a motivação ou a habilidade de forma flexível durante os confrontos e poderão contribuir para o estabelecimento de estratégias.
 
O camaleão do Iémen macho é conhecido pela sua agressão intersexual intensa. Neste sentido, precedendo o contacto físico, existem, frequentemente, encontros hostis que são evidenciados pelos sinais visuais rápidos em toda a extensão corporal. No estudo referido, tentou ligar-se as mudanças de cores ao comportamento que antecipam, como, por exemplo, a probabilidade de aproximação ao oponente e o resultado do confronto (probabilidade de ganhar o conflito), avaliando 28 mudanças diferentes de cor, através da promoção de encontros agonísticos estagiados entre camaleões do Iémen. A figura 1 representa-as.
 
Na prática veterinária é muito importante reconhecer as espécies e ter um conhecimento cimentado sobre o seu comportamento normal. Por sua vez, também os donos destas espécies devem reconhecer os seus sinais comunicativos, para poderem lidar com as diferentes situações, tal como compreenderem que no caso de algumas espécies de camaleões se apresentarem com uma cor mais escura está sob stress e esse stress deve ser investigado e combatido.

 
J.L. Kik, M. (2016). Reptile Communication, Its Implication on Reptile Practic (World Small Animal Veterinary Association Congress Proceedings, 2016). https://www.vin.com/doc/?id=8249918
Ligon, R., & McGraw, K. (2013). Chameleons communicate with complex colour changes during contests: different body regions convey different information. Biology Letters, 9(6), 20130892. doi: 10.1098/rsbl.2013.0892
Stuart-Fox, D., & Moussalli, A. (2008). Selection for Social Signalling Drives the Evolution of Chameleon Colour Change. Plos Biology, 6(1), e25. doi: 10.1371/journal.pbio.0060025